24 de jun de 2009

Um Pritzker para Harry Potter

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À medida que o milênio passado foi chegando ao fim, muitas crendices que nos acompanhavam há séculos, ressurgiram. O mundo iria acabar em fogo? O Juízo Final seria no ano 2000, ou em 1999? Outros textos alertavam justamente para o aparecimento de falsos profetas e promessas fantasiosas.
Quando o feng-shui ganhou força, lá pelos anos 80, pensei que era sinal dessa síndrome de final de milênio. Rapidamente ele foi ganhando adeptos, dos mais óbvios, como a revista Capricho, até os mais surpreendentes, como as escolas de arquitetura.
O feng-shui traz conselhos muito valiosos, como o de não construir o quarto de dormir sobre a cozinha ( já que os pisos de madeira podem pegar fogo) ou o de não construir na curva de um rio ( numa enchente, os riscos são grandes). A essas recomendações, de origem prática e baseadas na experiência humana, foram, com o tempo, juntadas outras, de caráter escuso. Uma das mais curiosas, e das que fizeram mais sucesso entre nós, foi a colocação de espelhos na porta de entrada, ou no hall das residências. O objetivo era cruel: quando um convidado colocasse olho gordo, ou lançasse um mal olhado na sua casa, isso se voltaria contra ele. A ideologia por trás dessa idéia é a mais retrógrada possível, remetendo à Lei do Talião, olho por olho, dente por dente. Ora, muito antes o Cristianismo já tinha proposto uma postura mais humanista, ao sugerir que se desse a outra face para o agressor. Voltar ao espírito vingativo é um retrocesso da civilização, postura que muitos adotaram alegremente.
Mesmo cheio de contradições, o feng-shui prosperou. O que é grave, entretanto, foi ter recebido o aval de arquitetos e de professores, os quais deveriam defender a Arquitetura do obscurantismo que prevalece no texto.

Não bastasse esse constrangimento, agora chega até nós, a geobiologia, que é, nada menos que a “ ciência que estuda a relação entre a Terra e os seres que a habitam”. É um tanto amplo, mas somos holistas, pois não? A geobiologia pretende estudar o modo como os ambientes influenciam diretamente a nossa saúde, uma relação que qualquer estudante de arquitetura percebe logo. Mas ela não aborda apenas, e nem principalmente, o campo de ação da natureza, pelo clima, o Sol e os ventos. A geobiologia vai atrás, como explicam os seus propagadores, da compreensão das “influências que provêm do solo geradas por águas subterrâneas, linhas do campo magnético terrestre, formas arquitetônicas, decoração, qualidade do ar, da água, poluição sonora e eletromagnética, radiações cósmicas, materiais de construção, e uma série de outros itens são peças chaves na determinação de locais salubres ou enfermos”.
Nessa extensa e aberta série de “outros itens”, imagino, cada um deve poder acrescentar alguma coisa do seu agrado, ou desagrado, algo que possa provocar a ira do genius loci e prejudicar o seu projeto.

O curso que vai se realizar nesse final de semana, com o apoio do IAB, é mais especializado e trata da Geometria Sagrada. Segundo Allan Pires, presidente do famoso e conceituado Instituto Brasileiro de Geobiologia, Biologia da Construção e Arte Zahori, “todo mundo merece habitar espaços que potencializem a saúde e a qualidade de vida e qualquer pessoa interessada pode aprender a aplicar a Geometria Sagrada em seu cotidiano. Aliá-la à profissão, inserindo-a em projetos de arquitetura, decoração, design gráfico, artes plásticas e até terapias de cura, é melhor ainda, porque o resultado do trabalho será notado com mais eficiência, devido ao bem-estar gerado”.
Como se vê, com um pouco de dedicação e esperteza, qualquer um pode se meter a médico de espaços doentes.

Fico pensando no significado que teria se a Associação Médica apoiasse um curso de cirurgia mediúnica. Ela jamais o faria, não para desprezar outras possibilidades de tratamento do corpo humano, mas sim para reafirmar o tipo de prática que fez com que a Medicina fosse reconhecida e que deu o direito aos seus praticantes de obter da sociedade, uma reserva de mercado.
A tradição da arquitetura nada tem a ver com “influências que provêm do solo geradas por águas subterrâneas”, exceto aquelas relacionadas com as ações do lençol freático.
Quando abrigamos sob a forma jurídica e institucional que a nossa profissão atingiu, técnicas e conhecimentos tão arbitrários quanto oportunistas, como são os que constituem essa extravagância chamada geobiologia, que mistura tecnologias alternativas com mistificação, corremos o risco de sermos flagrados num generalismo superficial, como o foram os jornalistas.
A fala do ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, sobre a profissão de jornalista, contém um alerta oportuno: “Na verdade, essa é uma decisão que vai repercutir, inclusive sobre outras profissões. Em verdade, a regra da profissão regulamentada é excepcional, no mundo todo e também no modelo brasileiro.”

Banalizar e deturpar os conhecimentos necessários ao arquiteto pode acarretar, no futuro, a substituição do diploma por uma varinha de condão.

2 comentários:

sandra maria antunes nogueira disse...

Caro Sérgio,
concordo totalmente e peço para que cada um que receba informações sobre geobiologia e geometria sagrada por email deletem antes de ler, porque o ambiente, nós arquitetos sabemos que contamina, mas informações infundadas e de pouco ou nenhum valor contaminam mais ainda. Salve! Salve! Alguém nos salve destas bobagens!

sergio disse...

Sandra, a sua sugestão é muito prudente: DELETAR! inclusive da memória...