7 de jun de 2009

Privacidade: uma pequena introdução

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No post sobre ergonomia, fiz um reparo ao Dicionário Houaiss, pela definição equivocada daquele termo, mas é preciso reconhecer o imensurável serviço prestado à língua portuguesa, por Antonio Houaiss (1915 – 1999) e por sua equipe. O seu dicionário substituiu o ultrapassado Aurélio, que chegava a se utilizar, para definir algumas palavras, de termos que não constavam no próprio dicionário.
Para dizer o mínimo, o Houaiss duplicou o número de verbetes (238.000) em relação ao seu antecessor.

Vou ao Houaiss em busca do termo privacidade e logo confirmo uma desconfiança antiga: “trata-se de anglicismo de empréstimo recente na língua (talvez década de 1970), sugerindo-se em seu lugar o uso de intimidade, liberdade pessoal, vida íntima, sossego”, me diz o carioca filho de imigrantes libaneses.
Nos anos 70, nos textos de arquitetura nas revistas estrangeiras, a palavra privacy sempre aparecia, ainda sem tradução disponível, mas, aos poucos, a idéia de privacidade foi assimilada pela nossa cultura, particularmente pela cultura arquitetônica. A incorporação da idéia é mais importante do que a mera adoção da palavra, pois privacidade implica que a minha vida particular não interessa a ninguém, inclusive se ela é sossegada e se nela eu gozo de liberdade ou de intimidade: só a mim interessam essas informações, que pertencem ao mundo privado.

É freqüente a confusão entre privacidade e individualismo, principalmente entre os defensores de uma vida comunitária na qual quase tudo deveria ser compartilhado. Nos 70’s, tanto o pessoal da dita esquerda quanto os da dita contra-cultura, pareciam buscar esses ideais, mas as diferenças eram flagrantes. O grupo à esquerda, mais politizado, era também bastante intolerante em relação às individualidades: detestava os cabeludos, abominava os homosexuais, desprezava as mulheres femininas. A liberdade proposta era à la Mao Tse Tung: todos de macacão azul (bleue de chine).
Já o pessoal da contra-cultura, genericamente hippies, procurava assegurar o direito às diferenças: cada um na sua, era o lema que não eliminava a confraternização, mas pelo contrário, a tornava autêntica.
A certa altura, parecia definido que uns ficariam no Movimento Ecológico e outros no PT, mas essa clareza durou pouco tempo.

O certo é que hoje, privacidade é um conceito largamente difundido, embora ainda pouco exercido, além de discretamente (ou nem tanto) combatido pelos pseudo-comunitaristas, que consideram esse direito como uma forma de exclusão praticada pela burguesia.

Privacidade e Arquitetura
Os conceitos de Público e Privado remontam ao direito romano. Privado, do latim privatus, é aquilo que pertence a cada indivíduo, é aquele domínio no qual até mesmo o Estado só entra sob condições especiais, como um mandato judicial. Entretanto, existe outra acepção de privado, no sentido de alguém que foi destituído ou despojado de algo, mas essa acepção é mais recente, datando do século XIV, e não deriva do latim privatus.
Mesmo assim, na prática, temos que o verbo privar tem dois significados antagônicos: o de impedir e o de integrar, o que pode causar alguma confusão. Por isso, quando falamos em privado é preciso que fique clara a acepção que estamos utilizando. Por outro lado, quando defendemos o direito à privacidade, não há dúvida de que estamos nos referindo à esfera individual, pois o termo não admite outra interpretação.
Quando a arquitetura torna um espaço privativo, ela está fazendo uma distinção clara entre ele e o espaço público, de modo a defender o indivíduo ou certos aspectos da sua vida, dos olhos, ouvidos e das mãos de outros. Para alguns, é suficiente que os setores mais íntimos da habitação estejam protegidos, mas para outros, mesmo as atividades sociais devem ser dotadas de privacidade. Isto ultrapassa, entretanto, a esfera residencial: o consultório médico e a sala de reuniões são exemplos de outros espaços que necessitam de privacidade.
É claro que tal condição, a de privacidade, não assegura a felicidade de ninguém e há quem prefira fazer o seu churrasco no jardim frontal da casa. Entretanto, o exercício da privacidade é também um modo de tornar mais decorosa a vida em comunidade, livrando o coletivo, das preferências pessoais invasivas.

O papel do arquiteto, enquanto alguém que medita incessantemente acerca das relações sociais é fundamental no aprimoramento destas relações e da sua necessária materialização no espaço.


.a vida pública e a vida privada da arte: não confundir com a vida, privada da arte
1. Brecheret: Musa Impassível, Pinacoteca de São Paulo
2. Studios: fotos de Mark Arbeit

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