31 de mai de 2009

adler & sullivan



Um friso em estêncil, na antiga Bolsa de Valores de Chicago, concebido por Louis Sullivan e Dankmar Adler e executado em lona por Healey & Millet, por volta de 1893.
O estêncil é uma técnica de impressão por meio de superfícies perfuradas ou cortadas.

brasil brasileiro

O governo não precisa ter pressa: apesar da umidade, estamos bem.














Experimente ver as fotos ao som da Aquarela do Brasil:
http://www.youtube.com/watch?v=b4D_1ochyus&feature=related

Photo: Lalo de Almeida for The New York Times

30 de mai de 2009

ergonomia



"A situação era tão nova que as suas velhas idéias não serviam mais. Emília
compreendeu um ponto que Dona Benta havia explicado, isto é, que nossas idéias
são filhas de nossa experiência. Ora, a mudança de tamanho da humanidade vinha
tornar as idéias tão inúteis como um tostão furado. A idéia duma caixa de fósforos,
por exemplo, era a idéia duma coisinha que os homens carregavam no bolso. Mas
com as criaturas diminuídas a ponto duma caixa de fósforos ficar do tamanho dum
pedestal de estátua, a “idéia-de-caixa-de-fósforos” já não vale coisa nenhuma. A
“idéia-de-leão” era dum terrível e perigosíssimo animal, comedor de gente; a
“idéia-de-pinto” era a dum bichinho inofensivo. Agora é o contrário: o perigoso é o
pinto
"(Monteiro Lobato, A Chave do Tamanho, p.11).

É sempre útil lembrar a origem e o significado das palavras. Ergonomia, segundo o Houaiss, é a “otimização das condições do trabalho humano, por meio de métodos da tecnologia e do desenho industrial”. O Houaiss que me perdoe, mas a sua definição é pouco clara, pois a ergonomia é o estudo das relações entre as atividades do homem e os condicionantes mecânicos do seu corpo, podendo resultar “na otimização das condições do trabalho humano”. A ergonomia se aplica ao desenho industrial, não se confundindo com ele: são instâncias distintas, que se unem ocasionalmente, na medida decidida pelo designer.

Literalmente, ergonomia quer dizer “normalização do trabalho” (do grego ergo + nomia). Porém, a etimologia da palavra, também necessita ser vista com bom senso pois, se toda normatização visa a uma padronização, também é fato que em certos casos essa norma é obrigação e em outras, apenas referência. Quando a Ergonomia busca a norma, ela busca, em primeira instância, o normal, o mais cômodo, o usual e não o estabelecimento de metas a serem desempenhadas pelo homem. Aliás, como diz a própria International Ergonomics Association, “a abordagem ergonômica consiste em projetar os produtos e os trabalhos de modo a adaptá-los às pessoas e não o contrário”.

Foi apoiado nessa acepção que o arquiteto Galileu Reis nos introduziu no mundo das relações funcionais, na disciplina Metodologia do Planejamento Arquitetônico, ministrada na Escola de Arquitetura da UFMG. Alí ficamos sabendo que cartolas e sombreros demandam caixas diferentes, se você quiser guardá-los sem danos.

Não sei se para não nos assustar, ou se por convicção, Galileu jamais falou em “existenzminimum” e se o tivesse feito, provavelmente sairíamos correndo. A expressão é assustadora e evoca sentimentos ligados à repressão e ao cerceamento da liberdade, à redução dos meios de sobrevivência: uma espécie de claustrofobia está implícita, totalmente incompatível com a Era de Aquarius que, pensávamos, se aproximava. No entanto, “existenzminimum”, que foi tema de um congresso de arquitetura em 1929, sintetizava a preocupação com o oferecimento de moradias populares com mínimas condições ambientais, o que incluia a área das habitações, a densidade, as áreas verdes, o acesso ao transporte, etc., atestando que a preocupação com as dimensões, no âmbito da arquitetura, já vem inserida num contexto mais amplo, que trata das condições gerais de qualidade dos espaços.

Sendo a ergonomia um conhecimento acerca do conforto ou do desconforto decorrentes das nossas escolhas dimensionais, por certo esse conhecimento é imprescindível ao arquiteto, tornando-se ainda mais relevante quando se constata que o pressuposto de um dimensionamento é o estudo das atividades que terão lugar em dado espaço, estudo no qual o componente antropológico está implícito. Mesmo assim, os que fazem restrições a uma abordagem ergonométrica no projeto, temem que, ao estudar as funções, o arquiteto projete espaços rígidos, espaços que não permitam outras ações além das previstas por ele.

Mas foi a aplicação da ergonomia na arquitetura, que permitiu o desenho de banheiros menores do que os tradicionais, sem perda de conforto, o que não impediu que muitos arquitetos tenham previsto limites mínimos prejudiciais aos usuários. Por outro lado, o projeto de uma cozinha industrial que não se apóie no conhecimento das atividades e na ergonomia, pode resultar em desconforto, mesmo sendo grande. Tive esta experiência ao entrar numa cozinha recém construída num clube de prestígio. À primeira vista, ela me pareceu muito boa, com espaços confortáveis, circulações largas e bancadas imensas. O chef que me acompanhava me situou melhor: "com uma cozinha deste tamanho, disse ele, os funcionários vão andar quilômetros por dia... ninguém vai querer trabalhar aqui".

Se os critérios de conforto e de desempenho justificam o uso dos conhecimentos da Ergonomia, tanto na arquitetura quanto no design, os efeitos negativos da arbitrariedade dimensional ficam mais evidentes no segundo, ou seja, no design de utensílios e de objetos em geral. Pense numa alça de mala mal dimensionada, ou num garfo com os dentes muito finos: serão colocados de lado imediatamente. Já com as edificações, isso não é tão simples e nos adaptamos aos inconvenientes, qualidade humana que conspira contra os arquitetos.

A partir do domínio da ergonomia, novos desenhos podem ser concebidos, sem que isto implique em mero experimentalismo. A forma e a função possuem relações mais complexas do que simplesmente as de causa e conseqüência, já disse um funcionalista cujo nome não me recordo, e essa interação é um grande indutor da criatividade. Esse é o caso do designer escandinavo, Aldo Bakker, que redesenha objetos do cotidiano. Na sua garrafa de água, o movimento para verter o líquido é reduzido pela metade, aliviando o esforço humano. Já no seu pratinho de molhar o pão no azeite, Aldo exerce uma outra possibilidade do design, que é a de nos ensinar que o petisco em questão fica mais saboroso se o pão for levemente embebido e não mergulhado no azeite.

A possibilidade pedagógica também existe na arquitetura.






















27 de mai de 2009

yukiya izumita

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vase 1


















vase 6











"The most important element in Izumita's work is hard to define physically: Passage of time is often implicit in each piece, whether it suggests deeply fissured boulders, a dried up and cracked stream bed, or jagged layers of erosion-exposed bedrocks. Each piece speaks silently of a personal dialog with nature."
http://www.touchingstone.com/Events.html

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24 de mai de 2009

alejandro aravena





















As Torres Siamesas, mostram as qualidades do trabalho do chileno Alejandro Aravena, mas a sua coragem não se restringe aos projetos, como fica claro na entrevista à Arcoweb:
"...para o tamanho do país, a arquitetura brasileira contemporânea é muito ruim. Há coisas vergonhosas, e surpreende que seja assim, com o Brasil tendo a escola que teve, tendo a geração anterior produzido arquitetura de tamanha qualidade - não só monumentos, mas também no tecido médio da cidade."

O projeto completo está no Archdaily, um blog muito bom: http://www.archdaily.com/1277/siamese-towers-alejandro-aravena/

ISO 2009

Os projetos de habitações destinadas a pessoas de menor renda, ressentem-se da ausência de arquitetos com qualificação arquitetônica mais equilibrada, arquitetos que reconheçam não só os direitos dos usuários, mas também a responsabilidade da arquitetura de promover o aprimoramento dos conceitos de espaço e moradia desses mesmos grupos. Tal ausência decorre tanto do desinteresse deles, quanto da falta de oportunidades e não estou certo sobre a medida de cada causa.

No momento em que podemos novamente pensar em melhorar as nossas cidades e as condições que elas proporcionam, a possibilidade de debater as intervenções propostas pelas agências públicas e pelos empreendedores privados deve ser considerada, por ser determinante do futuro. Nesse sentido, introduzo dois projetos, nos quais uma análise mais profunda pode revelar qualidades e contradições, mas que, em primeira instância, não deixam dúvidas sobre a sua condição de produção de uma inteligência arquitetônica plena.

A primeira proposta é dos arquitetos Filipe Balestra e Sara Göransson e foi elaborada para cidades da India. A estratégia é a transformação de assentamentos informais em distritos urbanos permanentes, por meio de um processo de melhoramento progressivo, ao contrário da demolição.
Maiores detalhes, no excelente blog Dezeen: http://www.dezeen.com/





















A segunda proposta é dos arquitetos Alejandro Aravena, Alfonso Montero, Tomás Cortese, Emilio de la Cerda, e se destina ao reassentamento de uma comunidade em Iquique, no Chile. Ela parte do provimento de condições para o incremento na área das unidades, mas sem perder o caráter do lugar.

Maiores detalhes sobre o trabalho do grupo: http://www.elementalchile.cl/
O Dezeen tem ótimas fotos: http://www.dezeen.com/2008/11/12/quinta-monroy-by-alejandro-aravena/
Uma entrevista de A. Aravena, para a Arcoweb: http://www.arcoweb.com.br/entrevista/alejandro-aravena-27-03-2009.html#Scene_1

23 de mai de 2009

Mais um papagaio empinado

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O Futuro das Pipas

Seria bom poder começar essa crônica assim: “ eu estava passando pela Pedreira Prado Lopes, quando...” e aí seguiria uma história feliz. Infelizmente, ninguém passa por lá. Na Pedreira só se vai por obrigação ou por falta de alternativa, seja você morador ou não.
Então, vou recomeçar: à procura das intervenções empreendidas pela Prefeitura, anunciadas como “Favela mais antiga de BH ganha nova cara”, cautelosamente cruzei o morro e, mesmo sem ter me aventurado a descer do carro, pude constatar a grande escala do trabalho e o imenso desafio: um desafio grande demais para ficar apenas nas mãos do estado.

Os objetivos das intervenções em curso são extensos; quase óbvios; quase difusos. E as ações não ocorrem em lugares específicos, mas de modo geral. Ou seja, não ocorrem no alto ou embaixo, no leste ou no oeste, no meio ou nas margens: ocorrem na favela, aqui e ali.

O discurso dos urbanistas é avesso a essas frescuras de hierarquia espacial, fruição visual e outras sofisticações do discurso arquitetônico. Quando se observa a lista dos objetivos (v. Portal da Prefeitura/Urbel/ Vila Viva) isso fica mais claro. São 7 objetivos. Um deles é Limpeza Urbana, com um sub-item, “ampliação da coleta de resíduos sólidos”. Um outro item é Reestruturação Urbanística, e um dos seus quatro sub-itens é “expansão das áreas de uso público e de convívio”. Isso poderia não dizer nada, pois não sei o desdobramento do discurso dentro do plano, mas se limpeza urbana é item e espaço público é sub-item, algo já começou mal.

Parei em frente a um canteiro de obras. Era um campo dividido em platôs, no qual meninos empinavam papagaios. Qual seria o futuro daquele espaço vazio, escancaradamente aberto, mais aberto ainda, pelo contraste com as ruínas palestínicas ao fundo? Os garotos, provavelmente pensavam no futuro das pipas e, sem saber, viviam aquele item perdido no meio da lista de objetivos da intervenção: as áreas de uso público e de convívio. Senti a fragilidade da poesia, diante das escavadeiras e das estatísticas: aqueles platôs tinham todo jeito de Plataforma para Alojamentos Coletivos, mas quem sabe do seu destino? Se os projetos tivessem sido publicados, poderíamos analisá-los melhor e até mesmo debatê-los. Planos desse tipo são importantes demais para serem resolvidos a portas fechadas.

Próximo ao sítio em questão, há uma construção resultante de ação anterior, cuja foto está estampada como se fosse algum tipo de atestado de sucesso, no site da Urbel. Trata-se de um conjunto de apartamentos ocupando o alto do morro. À primeira vista, chama a atenção, a densidade da implantação: não há áreas livres, pelo menos onde deveriam estar, voltadas para a paisagem. E nem da forma que deveriam ser, públicas. O modelo é inadequado também pelo telhado de grandes empenas, cujo potencial foi logo percebido pelos moradores, que mais uma vez impuseram a sua estúpida teoria construtiva.
Mas o erro seminal é a destinação do cume para uma meia dúzia de indivíduos, constituindo-se em mais uma das inúmeras oportunidades perdidas pelo poder público, por não se colocar em discussão, não só pelos moradores, mas também pela comunidade de arquitetos, espaços tão importantes, e mesmo históricos, como é a Pedreira.

Em empreendimentos mais recentes, como os da Vila São José, a Urbel projeta os edifícios mais parecidos com os da classe média, abandonando a meia água populista da Pedreira, em favor de modelos que aproximam falsamente as classes sociais. Este é mais um sintoma da indigência conceitual dominante, seja por descuido ou por impossibilidade. A pobreza na concepção dos espaços livres se apresenta mais uma vez, como uma marca, e agrava-se nas áreas privativas das unidades, que possuem 45 e 55 m2: para quem não tem sítio, não passa feriado na praia e não sabe freqüentar parques, deve ser desesperador.

Ao que tudo indica, a Prefeitura está perdida com relação aos modelos habitacionais que utiliza, não obstante a clara intenção de melhorar a vida da população carente. Talvez esteja na hora de mudar de estratégia. Ou de arquiteto. Ou ambas as coisas. O certo é que substituir as habitações sem qualificar suficientemente os espaços públicos, é empurrar os principais problemas das favelas para o futuro.



a realidade no alto do morro














a felicidade no site da Urbel

20 de mai de 2009

limites

boas cercas fazem bons vizinhos

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Em artigo no jornal O Globo, o sociólogo Roberto da Matta lembra que as cidades americanas não tem muros nas casas e cita a observação de Alceu Amoroso Lima que o impressionou nos anos 60, de que mesmo dentro delas, os espaços são contínuos, não havendo “barreiras entre a sala de visitas, a sala de jantar e mesmo os quartos”. “Tudo é público”, conclui Alceu. Tal afirmação demonstra que a análise das organizações espaciais não é tarefa para diletantes e que ela vai além da verificação das aparências, pois as estratégias de definição de domínios não precisam excluir a sua integração.

A partir das experiências modernistas e em particular das propostas de Frank Lloyd Wright, os interiores das casas americanas tornam-se de fato mais abertos, refletindo melhor a vida familiar e a integração da mulher, antes confinada à cozinha e à lavanderia. Mas isto não implica no retorno aos conflitos decorrentes da indistinção entre o espaço íntimo dos quartos e o espaço social da sala. Uma análise ainda que superficial, de casas dos anos 50 e 60 nos Estados Unidos, mostra justamente a busca de espaços sociais cada vez mais integrados entre si e com a natureza, por um lado, e a busca de privacidade do setor íntimo, por outro. Ou seja, nem tudo é público.

Para abolir os muros, algumas premissas são consideradas, sendo a primeira delas, um grande afastamento das casas em relação à rua, criando uma eficiente área de transição entre o público e o privado. Outra premissa é a própria percepção da população sobre esses domínios, inclusive implicando na manutenção daqueles espaços em boas condições. Todos já vimos cenas dos americanos com seus cortadores de grama, aos domingos, enquanto para muitos de nós, se o espaço não está murado, é sinal de que nele se pode jogar lixo.

A compreensão mais apurada do papel que tem os níveis de privacidade numa sociedade, permite que eles sejam trabalhados com liberdade e criatividade, o que é válido tanto para a casa quanto para a cidade. Por isso, o debate sobre o fechamento das favelas reveste-se de uma importância especial, pois expõe diversos aspectos da nossa convivência.

Na polêmica sobre a construção de muros cercando as favelas do Rio de Janeiro, duas posições se destacam, sendo a de condenação, mais numerosa. Aliás, quase unânime. Timidamente, a outra posição sugere que poderia haver outros modos de resolver a situação.

Mas que situação é essa? Para o governo, trata-se de impedir o avanço das favelas sobre as matas. Para outros, o que se quer é segregar espacialmente uma população, constituindo um gueto. Para outros mais, a questão é mesmo proteger a população em geral, da ação dos bandidos. A necessidade de se explicitar "a situação", é primária, mas se faz necessária, pois o caso apresenta dificuldades já na fase de identificação dos problemas e das diversas instâncias afetadas e interessadas. Esse é o passo inicial de qualquer ação que envolva o construtivo, ou não, e isso qualquer estudante de arquitetura aprende logo.

Muitos comentaristas apontaram como principal problema, a questão da formação de um gueto, ou daquilo que um perito da ONU, Alvaro Mejia, chamou de "discriminação geográfica". Bem, a definição de um domínio no espaço, seja no espaço natural ou no das cidades, é uma ação própria do homem. Os domínios são definidos por limites, que vão desde os mais sutis aos mais óbvios. Podem se manifestar pelo olhar dos seus habitantes ou se concretizar num muro. Quando um não morador erra o caminho e entra numa favela como a Rocinha, no Rio, ou a Cabana, em Bhz, tem a imediata sensação de que está no lugar errado, vendo-se então tolhido no seu direito de circular livremente. Pergunto: tal sensação se dá por preconceito ou é realmente perigoso? A resposta é sabida, mas é preciso responder de novo a pergunta inicial para que se definam todos os que estão sendo “geograficamente discriminados” e a própria natureza da discriminação.

Na sua visita a Israel, o Papa Bento XVI fez uma afirmação interessante sobre o muro erguido em torno da Cisjordânia. Disse ele: “Ao nosso lado (...) há um lembrete cruel do impasse que parecem ter alcançado as relações entre israelenses e palestinos”. Ao colocar o muro como “símbolo do impasse entre Israel e os palestinos” e ao exortar “ambos os lados a romper a espiral de violência”, Bento não acusa ninguém, mas salienta a precariedade do Homem, apontando o caminho do diálogo. De modo correlato, será que a construção do muro no Rio, não vai apenas materializar uma situação de fato, de violência e segregação, de parte a parte?

Ainda assim, se poderia contestar a construção do muro pela possibilidade de que ele se constitua em elemento de provocação e de acirramento das animosidades. Para indicar o nosso grau de insensibilidade e mesmo de cinismo, e sinal de que algo precisa ser mesmo provocado, basta ver não só os índices de violência, mas também o romantismo carioca, resumido em outra observação de Roberto da Matta: “Rio de Janeiro, terra do carnaval, da praia e da mistura aberta”. Porque então tantas mortes, pergunto.












Talvez uma resposta esteja na nossa peculiar interpretação a respeito do que seja público, privado e sobre o sentido de propriedade. Um japonês que encontra um boné no chão, não o toma para si, simplesmente porque não é seu e o coloca num lugar visível para que o dono o encontre. No outro extremo, edifícios de Ipanema, originalmente construídos no alinhamento da calçada, criaram áreas de proteção, invadindo o passeio público. Isso é visto com certa naturalidade por muitos, tanto quanto proclamar a sorte de ter achado um boné. Daí a apropriar-se de um bem alheio pela oportunidade é um passo. Curiosamente, se aquele bem não é cobiçado por ninguém, fazemos vista grossa.

O impedimento de que todos nós freqüentemos os morros, cariocas ou não, é um exemplo dessa disfunção social. A comunidade das favelas, por conveniência ou por passividade, inibe o acesso dos demais habitantes da cidade a pontos de potencial interesse coletivo, seja pela paisagem, seja pela mata, por objetivos econômicos, ou por mera curiosidade. Mas como a maioria não deseja essa aventura, a sua impossibilidade é dada como irrelevante. Ao não considerarmos importante o direito de qualquer um subir o morro, que é colocado abaixo do direito do mico-leão-dourado ou da casuarina, na verdade colaboramos para a confusão reinante, de domínios instituídos pela força, de práticas que ocupam vazios não reivindicados.

Voltando a questão do muro, se o debate visa a busca de respostas, então devemos nos perguntar não só o porque de um muro, mas também especular sobre qual tipo de intervenção seria satisfatória. Se os problemas em pauta forem a proteção da mata, o aumento da segurança, a melhoria da acessibilidade para todos e o incremento na integração entre as comunidades faveladas e a sociedade, a minha proposta é a construção, não de um muro, mas de uma muralha. Uma muralha nos moldes da Muralha da China. Um elemento de proteção, de impedimento do uso da mata para fins escusos, mas também que proporcione uma experiência significativa, coisa que não aconteceria numa simples via ao nível do chão, como propuseram alguns.

Diferentes muros têm diferentes significados. Um muro puro e simples é quase sempre e em quase todas as circunstâncias, uma solução ruim. Por outro lado, se ampliarmos o seu papel e dermos a ele uma forma adequada, o muro pode exercer outras potencialidades, como a de assinalar, de modo positivo, um Lugar.

19 de mai de 2009

odaiba


























Em Odaiba, uma ilha artificial na baía de Tokyo, a ambiência luminosa a que me referi (ver post abaixo).
A roda gigante ao fundo, tem 130 metros de altura e exibe um espetáculo de luzes coloridas, que mudam como num caleidoscópio.

poucas luzes

Nas fotos de Shibuya, num post abaixo, reparem a luz: os edifícios e as vitrines estão iluminados; as árvores, enfeitadas pro Natal; o céu está no momento mágico do twilight e as pessoas estão quase no escuro.
Nas grandes cidades japonesas não há uma iluminação feérica das ruas... tudo fica no limite mínimo. Dá pra ver o céu e a arquitetura se destaca.

A instalação acima, de Fumiki Bando me lembrou essa luz difusa, que esconde com recato e mostra sem alarde.

17 de mai de 2009

sobre música, concertos, espaços

Tujiko Noriko: http://www.youtube.com/watch?v=XGNlGSiWD6M&feature=related
(vai bem com o post abaixo...)

maarten brinkman


A criatividade manifestada em gestos e matérias simples, sempre me emociona, especialmente. Talvez seja por lembrar alguma espécie de mágica, de aparição inesperada, que remete aos estados mais inocentes da existência.
É assim a obra o holandês Maarten Brinkman, que trabalha com papel, fazendo recortes e dobras, sem qualquer perda de material. A estratégia já seria notável, mas além dela, o resultado é de grande beleza e a sua inventiva parece inesgotável.
























veja mais em: http://www.flickr.com/photos/maartenbrinkman/

16 de mai de 2009

shibuya, sábado à noite

Sábado é por acaso: Shibuya está sempre cheio. Na estação do metrô, passam 3 milhões de pessoas por dia. A multidão se diverte com ela mesma e tudo é possível: tornar-se uma celebridade fugaz ou ficar incógnito. Nas vitrines, os docinhos pra levar pra casa, ou o peixe frito pra comer alí mesmo. Nas fachadas, grandes telas exibem anúncios, clips, traillers...
Não dá pra entender nada, mas a gente entende tudo.