28 de mar de 2010

Um exercício de metacritica ou, três momentos de Serapião

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Nesse texto, faço uma crítica da análise crítica de projetos (uma metacritica), com base em três textos produzidos pelo arquiteto e editor executivo da revista “Projeto Design”, Fernando Serapião.
Trata-se de um texto longo, que poderia se desdobrar num trabalho de maior profundidade, coisa que estou cogitando. Mas enquanto isso não acontece, coloco o bode na sala.

São três partes
O Patinho Feio
Na primeira parte, falo sobre a posição de Marcio Kogan no contexto paulista e sobre dogmatismo.
Duas Casas
Na segunda parte, abordo as diferenças de tratamento e eventuais incoerências na análise de duas casas, uma projetada por Marcio Kogan (http://www.arcoweb.com.br/arquitetura/marcio-kogan-residencia-paraty-09-11-2009.html) e outra por Ângelo Bucci (http://www.arcoweb.com.br/arquitetura/angelo-bucci-spbr-arquitetos-residencia-01-06-2009.html), análises empreendidas pelo crítico em questão
Um carioca em Minas
Na última parte, aponto os riscos da contaminação política quando da análise de obras arquitetônicas.

Um exercício de metacritica ou, três momentos de Serapião 1

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Com as atribulações de final de ano, deixei passar em branco a publicação da Casa em Paraty, do arquiteto Marcio Kogan, cujo trabalho atingiu um alto grau de excelência já há muito tempo, tendo merecido amplo reconhecimento da crítica internacional.
A casa é esplendida. Da organização dos espaços às proporções, à escolha e o tratamento dos materiais, tudo nela é sensibilidade.
Segundo o autor do texto, o programa foi resolvido em formas ortogonais, contidas em volumes regulares. Tal procedimento, comum na arquitetura desde a Babilônia, é aqui levado a uma condição pós-moderna, pelo modo como os percursos são trabalhados e pela valorização sensorial dos materiais. Penso que, como é uma estratégia tradicional, tal partido não precisa ser alardeado, exceto se for como pré-requisito à aceitação do projeto em certos círculos (trato disso mais à frente).

Como em muitas outras oportunidades, Kogan não se deixa levar pelo artifício fácil do sistema estrutural espetacular ou pelo contentamento infantil daqueles que conseguem apoiar uma caixa imensa sobre quatro pilares. Para ele, a busca de proporções mais provocantes certamente supera o malabarismo, o que fica evidente na sala de estar e no grande balanço dos blocos, que buscam a emoção e não o recorde, a proeza.














O Patinho Feio
Insisto em classificar a obra de Kogan como pós-moderna, por que ela amplia a importância dos sentidos e é permeável ao contexto físico-cultural na arquitetura, salvando-a da frieza e do esquematismo nos quais o modernismo se meteu. Além disso, ele organiza os espaços de um modo sofisticado e diferente do imediatismo que o tardo-modernismo impôs, gerando percursos e domínios cuidadosamente configurados.

Classificar o trabalho de Kogan como pós-moderno também nos expõe ao patrulhamento pesado que a tal “escola paulista” exerce. Um peso que se faz morto na medida em que seus admiradores a consideram acabada e definitiva: parece que tudo de importante na arquitetura foi inventado ou foi sintetizado ali, no colo de Artigas e com uma mãozinha ora de Mies, ora de Corbusier. Sim, admitem-se precedentes e, na visão do crítico Fernando Serapião, até Wright poderia ser um deles, por seu projeto do Unity Temple, em Chicago: “(...) por ser um cubo de concreto, com amplo espaço interno iluminado pelo alto, o templo quase corre o risco de ser definido como matriz do ideário da escola paulista. Quase: falta a clareza estrutural.

Ora, afirmar que o projeto do Unity Temple não é estruturalmente claro equivale a dizer que as Ferraris não tem espaço pra cadeirinha de criança. Ou seja, não significa nada. O mito da estrutura ainda assombra parte dos arquitetos brasileiros os quais negam a validade de outras abordagens que não tenham o construtivo como determinante da expressão e da organização dos espaços. O olhar “paulista” (ele mesmo o define assim) de Serapíão também não entende bem a ornamentação art-deco dos interiores, definindo-a como “ (...) uma espécie de ornamento geométrico...”. Bem sucedida ou não, a linguagem de um projeto deve ser entendida dentro da sua própria lógica: a estrutura aparente é parte de um vocabulário e a ornamentação faz parte de outro. Elas até podem coexistir, mas não faz sentido reclamar, por exemplo, da falta de ornamento nas paredes dos projetos de Paulo Mendes da Rocha.

Voltemos a Marcio Kogan, que na cena paulista é tratado de modo diferente dos “herdeiros autênticos” de Artigas e dos cavaleiros de Paulo Mendes. A solução da casa de Paraty parece ser uma espécie de ingresso nesse clube de arquitetos que fazem casas quadradas sobre quatro apoios, ingresso assegurado pelo uso do concreto e dos volumes simples, não obstante os resultados tão diversos. É como se fosse necessário render-se ao grupo dominante para ser reconhecido, mas essa submissão exigida tem como preço a desqualificação da obra anterior de Kogan, por Serapião.
Num trecho da sua análise, o crítico afirma que: “(...) acrescente-se à trajetória da arquitetura de Kogan o caráter tectônico que, com vagar, os volumes vão ganhando, com estrutura mais clara e realista - que, de certa forma, também o aproxima dos colegas paulistas.” Ora, o que quer dizer esse “com vagar”? Pesquisem a obra do arquiteto e vocês verão projetos de altíssima qualidade realizados há muito tempo. O tom do discurso é tão indulgente quanto aquele usado pelo Imperador para convencer Luke Skywalker a aderir ao lado negro da Força, em Guerra nas Estrelas.
A expressão “em franca evolução” aparece duas vezes nos primeiros parágrafos do texto, mas o que se quer confirmar mesmo é a “prova de maturidade“ do arquiteto: ambas expressões representam um reconhecimento esnobe e limitado da qualidade do trabalho.

Ao finalizar o seu texto, Serapião não deixa dúvidas de que, para ele, a obra de Kogan é uma conjunção de fatores na qual o talento do arquiteto não tem qualquer importância. Diz o texto:
“Esse percurso do trabalho de Kogan pode ser creditado a quatro fatores. Em primeiro lugar, e mais importante, está a maturidade profissional. Em seguida vêm o constante mergulho na cena contemporânea internacional, o trabalho em equipe - com a participação efetiva de colaboradores na criação - e a demanda de clientes exigentes.”
Para mim, esse é o perfil de um profissional experiente, bem informado, bem assessorado e muito exigido por clientes esclarecidos e não o conjunto de atributos de um arquiteto criativo, o que Marcio Kogan sem dúvida alguma é.

Um exercício de metacritica ou, três momentos de Serapião 2

Duas Casas
Por uma coincidência, no mesmo ano de 2009, um outro paulista, Ângelo Bucci, construiu uma grande casa num contexto também espetacular, em Santa Tereza, no Rio de Janeiro. Ressalto o fato de Bucci e Kogan serem paulistas para mostrar que não existe necessariamente um bairrismo por trás da preferência de Serapião por alguns arquitetos e sim a predominância de uma ideologia.
A residência de Bucci foi projetada há três anos atrás, em 2006, e a Projeto publicou na época, reportagem com a sua maquete. Logo que ficou pronta, em maio de 2009, (ainda sem o paisagismo acabado) a casa foi publicada na revista. A casa de Kogan em Paraty ficou pronta no mesmo mês de maio de 2009, mas só foi publicada em outubro, um mês após ter sido premiada no Leaf Awards 2009, uma premiação internacional de arquitetura.

São apenas detalhes, mas não são insignificantes, como mostram as análises que acompanham a publicação das casas de Bucci e Kogan, ambas elaboradas por Fernando Serapião, que escreve um texto muito peculiar sobre essa casa tão especial, que é a de Paraty, uma das melhores casas construidas no Brasil nas últimas décadas.
Nesse texto surge uma personagem pouco freqüente na cena arquitetônica: o arquiteto e professor Aurélio Martinez Flores. Flores foi pouquíssimo publicado, não obstante sua longa trajetória, e nenhuma das suas casas aparece nas páginas das duas principais revistas brasileiras. Entretanto, segundo a análise de Serapião sobre a casa em Paraty, ela seria quase uma conseqüência da obra e do pensamento desse mexicano que adotou São Paulo.
Martinez Flores parece ter um trabalho realmente de interesse e livre dos dogmas modernistas, mas daí a dizer que o uso de generosas aberturas horizontais foi “eternizado” por ele, no Instituto Moreira Salles em Poços de Caldas, MG, é ser pouco fiel à história da arquitetura.
Os outros atributos da obra de Flores, que segundo Serapião, tem o trabalho “(...) marcado pelas caixas de alvenaria branca e massa raspada, pelo apuro no detalhamento minimalista e pelos espaços internos baseados em percursos e surpresas”, mesmo que tenham influenciado o seu ex-aluno, não podem ser considerados atributos originais e exclusivos, a ponto de definirem uma linhagem. São inúmeros os arquitetos que trabalham com esses critérios e, se resolvermos dar um exemplo bem distante, toda arquitetura egípcia do Quarto Império se enquadra aí.

Diferentemente da sua análise da casa de Bucci em Santa Tereza, na casa de Paraty, Serapião concentra-se no aspecto compositivo do projeto, o que me parece um equívoco. Já que o contexto da mata atlântica é a razão de ser da proposta de Kogan, a implantação deveria ser o tópico dominante, mas sequer é citada. Na casa de Santa Tereza é diferente: ali, mesmo que tenham havido considerações acerca da topografia e do entorno, procedimento recorrente em qualquer projeto, eles servem de suporte para a implantação de um modelo, não sendo inspiradores de uma concepção própria para o lugar.
Isso fica mais ou menos claro em certos enquadramentos: o Pão de Açúcar é maltratado duas vezes, sendo a primeira na sala, onde é coroado pelos trilhos dos vidros de correr. A segunda é na cozinha, onde divide a cena com uma coifa. Essa vista, a principal, também fica prejudicada pelo primeiro plano, constituído por uma vizinhança construída e invasiva, habilmente omitida das fotos. O esquematismo da proposta, na qual dois lados são empenas e dois lados abertos, impede a solução desse problema, não porque prejudicasse a pureza da concepção, mas porque o problema não foi detectado: um dos equívocos modernistas é a crença de que o edifício vai submeter o contexto.



Serapião vê outra coisa: “No caso de Bucci, a natureza é a paisagem e a casa, inserida em contexto urbano rico e centenário, é a mais importante contribuição recente ao local, onde se soma às dezenas de construções históricas que permeiam o tecido do bairro.” Não é o que mostram as fotos. A casa, na paisagem é uma composição que não condiz com a sua condição de ápice, de cume da montanha: ela não se decide entre a tomada de posse e a submissão à natureza. Curiosamente os volumes repetem a conformação do volume vizinho verde, abaixo dela, o que poderia indicar a intenção de mimetizar, embora isso não fizesse sentido algum. A empena cega é agressiva e não se impõe como elemento escultórico, constituindo-se em mero resultado construtivo, decorrente de um modelo.

Mas Serapião não discute muito a composição da casa de Santa Tereza, exceto pelos traços mais óbvios da sua configuração. Na verdade ele também fala pouco da casa de Paraty, descrevendo espaços e soluções de modo bastante superficial . Leiam os títulos das fotos e vocês perceberão o tom burocrático: “Amplos caixilhos integram estar e jantar ao exterior. A passarela sobre o espelho d’água marca o acesso. O pátio ilumina a cozinha. A varanda é continuidade da área fechada de estar”.
A varanda é continuidade da área fechada de estar? Ora, deve haver algo mais a ser dito.

Um exercício de metacritica ou, três momentos de Serapião 3

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Um carioca em Minas
O terceiro texto de Serapião é sobre o Centro Administrativo de MG, projetado por Niemeyer, em Belo Horizonte. O texto é curto e veiculado no ambiente extra-profissional de um jornal paulista, mesmo assim é inevitável que o autor seja visto com a autoridade de um arquiteto que fala de uma obra, ou seja, para o leitor, é uma opinião abalizada e técnica.
Serapião escorrega logo no título: “Ao mirar o futuro, Aécio acertou o passado”. A escolha é indecorosa porque o crítico usa da sua posição de arquiteto para, através de uma aparente análise da obra, atacar o cliente, no caso um político. Não que um arquiteto não possa ter posições, mas no caso, não sendo ele um analista político, seu papel é emitir uma opinião profissional acerca da obra.
Entretanto, também ao falar da obra a análise de Serapião é absolutamente indigente. Na casa de SantaTereza, a reutilização por parte de Bucci, de um repertório de soluções aplicadas a outros projetos, numa expressão que nem é tão original e própria assim, é tida como mérito. Quando se trata de Oscar, considera-se o caso como de “projeto de gaveta”. Um mínimo (ou será o máximo?) de coerência é o que se espera de um crítico.
O edifício das secretarias é envidraçado e voltado para muitas orientações, mas a casa carioca tem os quartos voltados para o poente... não em Minas, mas no Rio de Janeiro, com seu verão ameno. A eficiência energética tão cara a Serapião num caso, no outro é omitida.
É possível sim, criticar a solução de Niemeyer quanto ao uso do ar condicionado, embora essa seja uma solução quase inevitável, dadas as características contemporâneas das organizações administrativas. Há que se acrescentar que dispomos hoje de meios de controle do desempenho do ar condicionado, que minimizam as perdas decorrentes da insolação. Assim, não estamos diante de um “erro primário” mas de uma decisão projetual a ser discutida conceitualmente e não criminal ou politicamente. Tenho um amigo fazendo doutorado sobre esse tema, talvez fosse melhor que ele abandonasse os estudos e passasse a fazer manifestações em Copacabana.

A busca de estruturas arrojadas é recorrente na obra de Niemeyer e Serapião ironiza perguntando se o “ineditismo técnico” seria de “suma importância para a humanidade”. Ora a resposta é sim e não, mas antes de entrar nessa seara há que lembrar o entusiasmo do crítico diante da casa de Santa Tereza: “ (...) o destaque é a estrutura. O pavilhão alto é um grande pórtico com vão de 15 metros, apoiado em quatro pilares que, semiocultos por duas empenas laterais, são revelados ao tocar o solo.” A solução é tola mas o entusiasmo com a estrutura é volátil: vãos de 15 metros são notáveis, mas edifícios suspensos e vãos de 147 mts são fora de moda.
Sim, conforme nos lembra o articulista, o Hotel Quitandinha é um grande bloco curvo, mas sua semelhança com os escritórios da Cidade administrativa termina aí. Para início de conversa, no projeto de Minas, os blocos são dois, que formam um conjunto. Só essa diferença já seria suficiente para desqualificar a comparação: quem não percebe a diferença entre uma composição de dois blocos e um edifício isolado? Além do mais as proporções, a dupla curvatura, a solução dos apoios e o contexto, são completamente diferentes. Portanto, essa informação solta como foi, num ambiente leigo, é pura vigarice intelectual.
















a Mondadori, citada por Serapião(cujo princípio estrutural é o mesmo do Palácio Tiradentes) e o Quitandinha: referencias distantes


Segundo Serapião, o equivoco do projeto é acompanhado pelo equívoco da decisão de concentrar num só lugar a administração pública mineira. Para ele a idéia "é tão nova quanto um bonde”. Com um pouco mais de atenção, ele perceberia que é uma idéia ainda mais antiga do que os bondes: toda a história da humanidade está pontuada pela construção desses centros de grande simbolismo. Por outro lado, não é com um parágrafo apenas que se vai contestar a solução urbanística de induzir o desenvolvimento do setor norte de Belo Horizonte, o que reforça a tese de que o seu discurso tem intenções políticas e não arquitetônicas.
Tendo começado o seu texto pequeno e cheio de inconsistências com uma tolice, Serapião o encerra com uma outra maior ainda, ao sugerir que se deveria apostar “na capacidade arquitetônica” da geração atual. Ora Fernando, gerações não possuem capacidade arquitetônica: são os arquitetos, independentemente da idade, que a possuem. Para isto, uma instância crítica de maior qualidade seria uma grande contribuição.



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14 de mar de 2010

Steven Holl


O título do último livro do Steven Holl é excelente: Urbanisms. Working with doubt (Urbanismos. Trabalhando com a dúvida).

O texto da Dezeen (http://www.dezeen.com/) , também é:
"Os empreendimentos urbanos contemporâneos estão cada vez mais caracteizados pela confiança em diagramas, mapas e gráficos para transmitir o ponto de vista racional, estatístico da profissão de planejador urbano. No seu novo livro, Urbanisms, o arquiteto Steven Holl sugere que, assim como a moderna medicina tem reconhecido o poder irracional da psiquê, os planejadores urbanos precisam compreender que o poder da experiencia urbana não pode ser completamente racionalizado e deve ser estudado subjetivamente. Com uma seleção de seus projetos urbanos e arquitetônicos realizados nos últimos trinta anos, Holl estende o planejamento urbano para o domínio da incerteza, da prosa para a poesia. Urbanisms examina como a percepção e os sentidos são entrelaçados com material, espaço e luz da forma urbana."

Sérgio Bernardes e o arquiteto prospectivo.

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Hotel Tambaú, em João Pessoa, projetado em 1966, por Sérgio Bernardes

No início de 1982, fui convidado para elaborar a programação do 1º Encontro Brasileiro de Arquitetura, que efetivamente foi realizado naquele ano, em Belo Horizonte, com a presença de mais de 500 arquitetos de todo o país. Os autores da idéia foram Éolo Maia, João Diniz e Sylvio de Podestá, dentre outros. Analisei a questão e, ao invés daquele tradicional desfile de estrelas apresentando os seus projetos, que até tem lá o seu encanto, propus uma temática mais reflexiva, que resultou no título do encontro: Visões Contemporâneas.
A idéia era estruturar o evento convidando dois arquitetos de peso na arquitetura brasileira, mas que andavam esquecidos: Sérgio Bernardes e Paulo Mendes da Rocha. A reação inicial do grupo foi cautelosa, indagando se eles não representariam o passado, num evento que objetivava o contemporâneo. Ao final todos cederam às evidências acerca da necessidade de reincorporar aqueles dois gênios à cena brasileira.
Bernardes estava morando num pequeno apartamento em Ipanema e logo se entusiasmou com o convite. Paulo Mendes atendeu, ele mesmo, o telefone (hoje a fila de espera para obter uma entrevista sua deve ser de semanas ou meses) e imediatamente concordou em vir.
Sérgio Bernardes chegou para a palestra de abertura de mãos vazias... trazia no bolso apenas um slide: a primeira imagem da Terra vista do espaço, sem a presença de nuvens. Uma montagem que havia demorado anos para ser feita. Sérgio participava de grupos de discussão da NASA, daí estar de posse daquela foto magnífica e falou sobre as relações do homem com a natureza, das possibilidades dos assentamentos humanos e de tudo mais que interessa à arquitetura e aos arquitetos, a partir daquela única imagem.

Estava ali, diante da platéia embevecida, um dos poucos arquitetos brasileiros com uma noção de realismo diferente daquela que já predominava na época e que hoje é quase unânime, noção essa que se apega a um realismo legalista e pseudo social, aparentemente defendendo a ordem e o bem estar coletivo, mas que deixa poucas brechas ao necessário e efetivo projeto de futuro.
Bernardes ousava pensar o novo, certo de que as leis decorrem do reconhecimento daquilo que pode ser melhor para a sociedade, e que elas não podem ser apenas instrumentos de cerceamento da liberdade.

A arquitetura brasileira padece desse mal. Só se pensa no que é legal, e pouco se questionam as leis, para que elas evoluam. Daí, a cada reformulação dos códigos, vemos mais do mesmo.
Pensem no Hotel Tambaú, em João Pessoa, construído em 1966. No Brasil de hoje não seria possível construí-lo devido às leis de preservação do meio ambiente, que são, em grande parte, um instrumento de punição para maus projetos e ações irresponsáveis. Mas, pergunto: o projeto desse hotel está na mesma categoria do lançamento de esgotos na praia? Para os legisladores, parece que sim, mas o pior de tudo é que os arquitetos cada vez menos pensam naquilo que a lei não permite.

A arquitetura pode estabelecer relações com a natureza que não sejam de mera submissão, coisa que as culturas avançadas descobriram há séculos, e que estão representadas no século XX por diversos projetos como os da Baia de Tokyo, o do Sea Ranch, o de Taliesin West, do Centro Cultural de Tjibao e muitos outros.
Recentemente, o Ministério Público de Pará de Minas, rejeitou a liberação de algumas áreas dentro da Área de Preservação do Cristo, para pequenas construções de cunho cultural, como se a arquitetura não tivesse resposta para a delicadeza implícita em intervenções desse tipo.

A Lei de Uso do Solo de BH, tem vícios semelhantes, que atestam o caráter punitivo em detrimento da evolução e que partem do princípio de que os arquitetos sempre farão alguma tolice e precisam ser tutelados o tempo todo.
Nela existem as chamadas ADE’s, cerca de 18, que são definidas como áreas que “...por suas características, exigem a implementação de políticas específicas, permanentes ou não, podendo demandar parâmetros urbanísticos, fiscais e de funcionamento de atividades diferenciados, que se sobrepõem aos do zoneamento e sobre eles preponderam.”
A sua mera existência já me parece ser uma distorção, um atestado de que a cidade foi considerada como massa comum, com alguns poucos pontos diferenciados. Se as ADE’s são definidas como instrumentos de ordenação de áreas especiais, pergunto: qual região da cidade não possui lugares que merecem tratamento especial?
E mais, porque o especial implica em restrição? O parágrafo segundo diz: “Os parâmetros urbanísticos relativos a coeficiente de aproveitamento do solo, quotas de terreno por unidade habitacional e taxa de permeabilização das ADEs que vierem a ser instituídas por lei específica devem ser iguais ou mais restritivos que os da zona em que se localizem.” Qual o motivo da bronca? Em certas circunstâncias os parâmetros não poderiam ser mais flexíveis ou generosos?

A parcialidade da abordagem transparece em muitos pontos: o bairro Buritis precisa de um controle de densidade, por culpa da própria Prefeitura, que não exigiu um dimensionamento viário adequado na época da aprovação, mas o Gutierrez não precisa desse controle também? Santa Tereza é considerado histórico, mas o Prado, onde moravam os maiores construtores italianos da época da construção da capital, com seu traçado irregular e casas primorosas, está indo abaixo. O bairro da Serra é o único onde as vistas da Serra do Curral precisam ser preservadas? Discordo: a Serra do Curral é mais impressionante vista do bairro dos Caiçaras, na zona Norte da cidade: alí não tem ADE...
Por outro lado, o Vale do Arrudas, que poderia ser um valioso braço na revitalização do centro da cidade, não foi objeto de qualquer definição, apenas se faz a mera constatação da sua importância. A definição dessa área não afeta as demais?
Sim, é preciso reconhecer que tudo isso é muito complexo, mas, sem um sonho, a cidade é apenas um aglomerado legalmente organizado.

Voltemos ao Sérgio Bernardes. Além de um hotel mar adentro, ele propôs o uso do espaço aéreo dos leitos das ferrovias do Rio de Janeiro para a construção de condomínios habitacionais. Propôs um conjunto de casas na Ilha Grande, em contato direto com a floresta, mas suspensas por cabos...
Bernardes não se julgava dono da verdade, embora absolutamente convicto das suas idéias: sabia que a utopia aponta uma direção, mais do que um resultado.
O mundo está cheio de arquitetos assim, enquanto a glória brasileira é aprovar um projeto na prefeitura, sob o crivo de gente que, na sua maior parte, despreza o nosso trabalho.
Recentemente o IAB lançou uma campanha para obter algo quase cômico, se não fosse trágico: o atendimento cortês, ou o fim das humilhações impostas aos arquitetos, por parte dos funcionários da prefeitura de BH.
Nas últimas décadas, o setor de aprovação de projetos da PBH, com sua implicância, arrogância e volatilidade interpretativa, tem jogado os construtores, sempre chamados de especuladores, no colo de arquitetos medíocres, cujo único mérito é conhecer os caminhos da aprovação de projetos, caminhos esses azeitados pelas relações pessoais e facilitados pela indigência arquitetônica.

Uma boa legislação deveria incentivar boas práticas. Estou tão certo disto quanto de que práticas profissionais muito aquém do estado da arte de uma disciplina, são também fruto de uma legislação ruim.





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