29 de ago de 2009

Vitruvio e os mineiros

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O texto a seguir é a edição do capitulo intitulado “Vitruvio e os Mineiros”, que faz parte da dissertação “Um Olhar Vitruviano Sobre a Academia”. No capítulo em questão, cotejo algumas idéias sobre a forma arquitetônica, defendidas por Carlos Antonio Leite Brandão, Maria Lucia Malard e Silke Kapp, professores e pensadores muito atuantes, com as proposições de Marco Vitruvio. O trecho publicado corresponde ao discurso de Carlos Brandão, que é mais incisivo nas críticas à linguagem da arquitetura contemporânea.
















vista parcial de Roma.
vista parcial de Elciego



VITRÚVIO E OS MINEIROS (ed)

1. O EQUILIBRIO
Vitruvio propôs que a arquitetura se apoiasse sobre uma tríade, a utilitas (o uso), a firmitas (as técnicas construtivas) e a venustas (a beleza ou expressão plástica). A respeito dessa tríade, construiu-se várias fantasias. Uma delas é a de que os bons edifícios sempre contemplassem com igual importância, as questões funcionais, construtivas e estéticas. É difícil encontrar-se uma boa arquitetura quando um desses aspectos é desprezado ou mal resolvido, mas daí a se exigir um equilíbrio, no sentido de igualdade, vai grande distância. A forma, em particular é um aspecto que, quando sobressai, recebe duras críticas, como mostra a resistência histórica da academia à obra de Niemeyer, só esmaecidas nos últimos 10 ou 15 anos. No entanto, as reservas à exuberância plástica, seja de Oscar ou de Gehry, permanecem.

Diz Carlos Brandão:
(...)A forma, enquanto aspecto exterior de um objeto, não pode ser julgada por si só nem conduz a nenhuma mudança efetiva na história e na produção da arquitetura e da arte. Nenhuma revolução artística vingou e alterou nossa relação com a natureza, com nossos semelhantes e com a cultura enquanto propôs apenas uma mudança nas configurações aparentes: tais vanguardas "formalistas" geraram, no máximo, novidades que rapidamente foram substituídas por outras e outras”.

Já no século XV, Leon Battista Alberti, corroborando o temor pela autonomia da forma, expresso por Brandão no trecho acima, havia advertido: “Nunca sacrificar a utilidade ao deleite”. Ora, se a intenção estética sempre deve ceder, se a beleza é objetivo de segunda grandeza, não há motivo então, para se discutir o equilíbrio entre a utilitas, a firmitas e a venustas: a venustas seria sempre decorrente da existência prévia do uso e da tecnologia, sem nenhum poder de barganha.
Não é surpresa que Oscar Niemeyer tenha reagido a esta posição, que atribui à forma um papel passivo, sofismando: “A beleza também é uma função”.

No pensamento vitruviano, a possibilidade do desequilíbrio na tríade está prevista e é sugerida pelo Decoro: se o Decoro emana, ou dos costumes, ou do uso, ou da natureza, ao final podem predominar as cores da tradição, e/ou da função, e/ou do lugar, o que alias é uma constante na história da arquitetura, onde enfoques que privilegiem apenas um dos aspectos dos edifícios, são prática corrente.

2. APARENCIAS E CONTEÚDOS: A TEORIA

Outro aspecto levantado quando se discute a forma, e que geralmente nos afasta da sua materialidade, são às relações entre as formas e a teoria:
“O que homologa o objeto artístico não é ele ser espetacular ou aprazível aos olhos, mas, sobretudo, útil à humanidade frente à precariedade de sua natureza, ao seu enfrentamento com a fortuna e o tempo e à sua capacidade de alimentar um impulso ético e moral para o qual não somos atraídos em função do impulso estético que domina nossa natureza decaída e nossa atração por ilusões e fantasmagorias. (...) O que dá prazer na arquitetura não é a beleza exterior da obra, mas a satisfação e utilidade que ela proporciona ao entrar em nossa vida”.

O enfoque acima dado por Brandão indica que a forma arquitetônica, não se resume à sua aparência ou ao que oferece aos sentidos e que sua importância reside na sua vivência pelo usuário. Entretanto não há como ignorar que a imagem externa é a que primeiro se oferece, sendo, na grande maioria dos casos, o único contato nosso com o edifício. Surge daí a categoria do fruidor, aquele que passa pelo edifício ou que aprecia a paisagem. Mas além de só se revelar plenamente na sua utilização, para Brandão, a aparência deveria vir sempre complementada pela Idéia:
“O sentido de "forma" não é unívoco e comporta dois entendimentos distintos e que, no caso da crítica e da história da arquitetura, chegam a se opor: a forma como morjh , "morphé", e a forma como eidoz , "eidos". Na primeira acepção, da qual se originará "morfologia" por exemplo, ela é considerada como o aspecto externo de alguma coisa, sua aparência visível e dimensão sensível, ou seja, "estética". No segundo caso, forma significa "idéia", conformação mental ou disegno interior, como em Cennini e Vasari, a ser aplicado para ordenar a matéria e estabelecer nela relações e disposições”.

Aqui, a condição de totalidade, exigida ao objeto arquitetônico, implica em que ele revele, além da sua aparência, “a forma do pensamento que o constitui, sua universalidade, o modo como transitou pelas várias dimensões”.
Fica vedada, desse modo, a possibilidade de que forma e significado sejam entidades distintas, ou seja, aposta-se que o significado não resulta da adesão do usuário e/ou do fruidor mas que já estaria impregnado na forma, latente e pronto para ser percebido, cabendo à forma, a tarefa de explicitá-lo.
De certo modo esta exigência é comparável ao que Compagnon chama de “terrorismo teórico”:
“A relação entre a intenção formal e a novidade efetiva não é, entretanto, evidente, porque a arte tem a tendência de desorientar as melhores intenções do mundo. Submetê-la a idéias, a uma filosofia, a uma política, a um sistema, não é fazer dela uma idéia empobrecedora?”

Ainda assim, no tocante à necessidade da teoria, existe um paralelo entre o pleito de Brandão e a preocupação vitruviana de que a teoria acompanhe a prática. Porém, para Vitrúvio, teorizar é ratiocinatione, ou seja, “cálculo, avaliação, busca do que é razoável” e nem tanto um esforço em direção à sabedoria, que se encontra na raiz de filosofar. Com esta nuance, parece se confirmar a percepção de Brandão, de que “Vitrúvio dirige-se para um arquiteto artesão”.

Penso que os arquitetos romanos, que projetaram o Panteón, o Coliseu, os Mercados de Trajano e as Termas de Caracala, deviam merecer, tanto quanto Brunelleschi, o status de intelectuais. Entretanto, a acepção na qual Vitrúvio emprega o termo teoria, não nos deixa dúvidas de que ele vê a arquitetura com alto grau de objetividade, embora esse traço não tenha implicado no desprezo ao caráter transcendente da forma, e nem numa visão mecanicista da função.


3. FORMA E FORMALISMO

A amplitude da abordagem que Brandão faz da forma arquitetônica tem um endereço principal: a crítica ao que ele considera o “formalismo vigente na arquitetura contemporânea”:
“A arquitetura contemporânea, mais do que romper com as formas tradicionais da harmonia compositiva, tem promovido o desencontro entre a aparência exterior e a utilidade, a economia e a solidez — entre a venustas, a firmitas e a utilitas, portanto — para dar-nos apenas o primeiro destes parâmetros como sua exclusiva referência axiológica e projetual. Para trafegar na esteticidade da vida contemporânea, ela, tal como as outras artes, hipertrofiou a dimensão da venustas, da imagem, da originalidade próprias a um universo estético completamente alheio às questões de utilidade, necessidade, moralidade e capacidade de construir um mundo humano "melhor e mais feliz".

Distinguo, aqui, dois níveis do problema: no primeiro colocaríamos a preocupação excessiva com a aparência dos edifícios. No segundo nivel estaria a imersão da arquitetura no mundo dos efeitos exclusivamente visuais.

Tal distinção torna-se importante, se considerarmos as críticas, também à produção contemporânea, feitas por Juhani Pallasmaa:
“(...)Como conseqüência do poder do olho sobre os domínios sensoriais, a arquitetura transformou-se numa forma de arte da imagem visual instantânea. Ao invés de criar microcosmos existenciais, representações corporificadas do mundo, a arquitetura projeta imagens retinais com o propósito de persuasão imediata.(...) Nossos edifícios perderam sua opacidade e profundidade, apelo sensorial e da descoberta, mistério e sombra”.

Ou seja, para Pallasmaa, o problema está na sub-utilização do potencial da forma arquitetônica, freqüentemente reduzida aos efeitos visuais. Poderíamos concluir então que, para ele, é desejável o aprofundamento, e não recuo ou comedimento, na exploração da forma, ou seja, fazê-la mais eficaz na produção de sensações múltiplas e não só visuais.

Entretanto, ao se reprimir o universo sensorial implícito na venustas e, como Alberti, almejar-se “uma vida melhor e mais feliz”, no âmbito do ensino, são bloqueadas ações pedagógicas relativas à forma, ações estas que restituiriam às escolas, a sua autonomia investigativa, fazendo-as menos vulneráveis à manipulação e interesses diversos. Por outro lado, considerando a amplitude dos papéis que a arquitetura deve exercer na cultura, creio que deveríamos nos alinhar com Vitruvio e realizar, na venustas, uma vida apaixonada.


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O texto completo de Carlos A. L. Brandão, se encontra em: Interpretar Arquitetura n6/vol.4, no endereço www.arquitetura.ufmg.br.ia

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