17 de ago de 2009

um concurso importante, num momento importante

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a praia de Copacabana, no lado superior da foto


Esta semana foi divulgado o resultado do concurso para a sede do Museu da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro. O sítio não poderia ser mais adequado e importante: a praia de Copacabana.
Concursos de arquitetura ... tem gente que fica viciada neles, como num jogo qualquer, o que comprova o lado apaixonante da questão. Penso que concursos para projetos públicos, pagos com o dinheiro público, deveriam ser abertos, mas até nisso podem haver exceções e a escolha do projeto para a sede do Museu da Imagem e do Som é uma exceção compreensível. Trata-se de um sitio emblemático e a pré-definição dos participantes dificulta a escolha de um projeto que caduque em poucos anos, coisa que acontece com freqüência.
Alguns dos grandes problemas que os concursos de arquitetura enfrentam, são a isenção e competência do júri. Mesmo arquitetos corajosos e independentes guardam para as mesas de bar, o seu testemunho sobre tentativas de favorecimento de concorrentes, que não são poucas. Na campanha pela democratização das oportunidades, portanto, talvez pudéssemos começar pelo aprimoramento das comissões julgadoras, o que elevaria, com certeza o nível das apreciações dos projetos, que são geralmente indigentes.

No caso do MIS, foram convidadas sete equipes de arquitetos, eleitas pelos critérios obscuros que sempre vão caracterizar os concursos fechados. A falta de regras, entretanto, não precisa necessariamente implicar num amontoado inadequado de competidores.
Dentre os brasileiros, considero justificáveis as escolhas de Isay Wenfeld, da Brasil Arquitetura e da dupla Bernardes & Jacobsen, cuja produção, mesmo que comparável a muitas outras no país, os qualifica. Uma maior pluralidade poderia ter sido mais proveitosa, mas os nomes escolhidos são aqueles constantemente incensados pelas duas revistas de arquitetura do país, com o apoio da comunidade de arquitetos que assiste à transformação de obras banais em ícones e à elevação de arquitetos medíocres à categoria dos “populares”, sem se dar conta dos interesses até mesmo econômicos, por trás dessas publicações e dos danos das suas frequentes arbitrariedades à nossa cultura arquitetônica.
Incluo nesse caso os arquitetos que são prematuramente elevados ao estrelato, como o Tacoa Arquitetos, autores do projeto da Galeria Adriana Varejão, no Inhotin, onde já haviam revelado a sua inexperiência, agravada pela superficialidade da concepção, ambas confirmadas agora na sua proposta para o MIS.
Também foram convidados três estrangeiros: o previsível Daniel Libeskind, que passou os últimos meses fazendo lobby no Brasil, com o apoio da imprensa, Shigeru Ban, cuja escolha surpreende, pois seu trabalho tem ênfase na pesquisa de tecnologias alternativas, opção pouco recomendada para um país pouco afeito à manutenção de edifícios, e o grupo Diller, Scofidio e Renfro.

As informações sobre o concurso, tais como programa e verbas, são escassas, nos restando a análise exterior e superficial das propostas, o que prejudica o seu uso como instrumento de aprendizado. Mesmo assim, pensando em tirar algumas lições do exercício projetual empreendido pelos arquitetos convidados, e ainda que restrito à questão plástica e às relações com o contexto, analisei as propostas, a partir da divisão dos trabalhos em três grupos.
O primeiro é integrado pelos projetos de Daniel Libeskind (1)e de Bernardes/Jacobsen (2), projetos que possuem em comum a partição vertical do volume construído, aproximando-se assim, do ritmo do conjunto edificado de Copacabana, composto por edifícios com essa tendência. Ambos se diferenciam do contexto explorando a geometria, por meio de ângulos inusitados (Libeskind) ou girando os volumes ortogonais, promovendo um ruído agradável na paisagem (Bernardes/Jacobsen).
Tal estratégia leva ambas as propostas a uma composição aditiva, ou seja, a um resultado final no qual edifício é composto por volumes distintos. Além disto, ambos optaram pela ampliação da esquina, expandindo os benefícios espaciais da intervenção, para dentro do bairro.




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O segundo grupo é integrado por Shigeru Ban (3), Brasil Arquitetura(4) e Tacoa (5), e é constituído por volumes únicos. Essa tentaiva de resolver de uma só cajadada, as complexas questões das relações urbanas é sempre arriscada pois, ao enfatizar a relação figura/fundo, o arquiteto se vê na obrigação de dar uma resposta plasticamente forte e original, ainda que polêmica, o que nenhum dos três conseguiu. Quem chega mais perto disto, embora com o edifício mais feio, é Shigeru Ban, que elabora uma volumetria distinta do entorno, fazendo do objeto um corpo independente, Entretanto, Ban parece ter confundido o Brasil com a Índia, perdendo, no tratamento dado à forma, a oportunidade consolidar as suas grandes possibilidades expressivas.
A proposta do Tacoa, uma caixa regular e fora de prumo, possui traços surrealistas e infantis, mas seja pela lembrança de Magritte ou do Superman levantando pesos, coloca-se na retaguarda da vanguarda do século XX.
O terceiro componente desse grupo é o Brasil Arquitetura, com a proposta mais insensível ao sítio, dentre todas as sete. O volume proposto apresenta uma grande abertura de forma livre e perigosa, pois a mim pelo menos, se parece com a silhueta do Dom Pixote com um turbante de Carmem Miranda: sempre enxergaremos um nariz no mapa de Minas Gerais. Por outro lado, a esfera que liga e separa o Museu do seu vizinho, remonta diretamente à Rede Globo, entidade indissociável da cidade do Rio de Janeiro, o que pode gerar alguma confusão sobre o uso do edifício. Caso a esfera polida não tenha sido criada pelo escultor Anish Kapoor, aí então seu uso seria ainda mais questionável.



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No terceiro grupo estão os dois projetos de que mais gostei: o de Isay Wenfeld (6) e o de Diller, Scofidio e Renfro (7). Ambos exploram formas baseadas na superposição de elementos horizontais, gerando linhas de força que ampliam a sua presença na paisagem.
A proposta de Wenfeld trabalha quatro caixas muito bem definidas, com tratamentos diferenciados e que parecem partir mais da intenção plástica do que das relações com o entorno. Mas uma fachada é também isto: como explicar aqueles volumes cegos ou semi-fechados por brises e cobogós, voltados para uma das paisagens mais belas do mundo? Do ponto de vista do pedestre, figura elevada à categoria de mito pela existência do Calçadão de Copacabana, a proposta é fria: embora muito bonita pelas relações entre os volumes, com balanços impressionantes e contrastes eficazes, o edifício resulta excessivamente monumental.



















É nesse aspecto que o projeto vencedor, de Diller, Scofidio e Renfro, apresenta qualidades extraordinárias. A solução das rampas de circulação no exterior, dá idéia de continuidade com o calçadão, insinuando que quem está na rua pode subir naturalmente ao museu. As diagonais resultantes conferem movimento e distinguem o edifício dos seus vizinhos sempre cheios de horizontais e verticais e vão fazer dele um espetáculo na paisagem. Talvez por isso mesmo, pela leveza com que explora o destino de beleza de toda arquitetura, poderá ser alvo de críticas dessa corporação tão apegada ao seu passado modernista, como é a dos arquitetos brasileiros.
Voltando às diferenças entre concursos abertos ou fechados, só por esse arejamento das consciências, o concurso do MIS já terá valido à pena.












































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