18 de ago de 2009

Um outro lado dos concursos

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No seu blog (http://www.parededemeia.blogspot.com/) o arquiteto e professor Fernando Lara faz uma observação sagaz sobre o concurso do MIS. É a seguinte:

“ (...)alguém reparou na luz dos projetos finalistas? não? então volta lá e olha.
o terreno do MIS fica numa parte de Copacabana orientada diretamente pra sul. Na latitude do Rio isso significa que o sol nunca bate diretamente na fachada principal a não ser próximo do meio-dia uns poucos dias no final de dezembro (solstício de verão). reparando nos projetos finalistas, todos mostram a fachada sombreada, o que corresponde a realidade mas não ajuda nem um pouco a vender a idéia, exceto o projeto vencedor de Diller, Scofidio e Renfro.
fica difícil saber até que ponto essa esperteza influenciou o resultado mas isso sustenta horas de conversa, não acham?”


Um aspecto muito estudado nos concursos é a estratégia de apresentação. Desde a montagem das pranchas até o ângulo das perspectivas, tudo é pensado em termos de sedução e de informação. Um ante-projeto serve para demonstrar soluções, mas serve também para convencer clientes e jurados a comprar a idéia. Num concurso, apresentações confusas como a da Zaha Hadid no The Peak, em Hong Kong, que ilustra esse post, podem resultar em desclassificação. Sua sorte foi que Arata Isosaki, membro do júri, resolveu dar uma olhada nos projetos que tinham sucumbido à primeira peneirada e resgatou o dela. Hadid acabou vencendo o concurso. Em que medida os seus desenhos são informação ou sedução?

Essa questão remete ao texto de Erwin Panofsky, A Perspectiva como Forma Simbólica, de 1925. O título já diz muito e o texto explora a tese de que a perspectiva é uma representação ligada à noção de espaço de cada época. Portanto, não faz sentido esperar que tal representação seja isenta, mas esperamos que o júri seja suficientemente experiente, para não se deixar levar pelas aparências e pelas primeiras impressões.

No caso do MIS, parece que as equipes fizeram uma fotomontagem sobre um material comum, possivelmente fornecido pela organização do concurso. Me refiro à vista geral, num ângulo que ninguém vai ver (exceto as gaivotas) e que faz parte das apresentações dos projetos.
Na proposta de Wenfeld, a foto parece ter recebido um filtro âmbar, amarelado, tornando-a mais quente. Renfro aumenta o brilho da fachada sul e elimina o sol que incidia na fachada leste, provavelmente pelo horário no qual a foto foi tirada. Certamente na maior parte do dia a fachada leste tb estará em sombra.
Nas propostas da Brasil e de Tacoa, uma luz providencial aparece na lateral direita e que solta o edifício dos vizinhos: uma luz inexistente nos outros cinco projetos.
Os projetos de Ban, Libeskind e de Jacobsen estão na sombra e nada fazem diante dessa realidade.

Mais uma vez deve-se reconhecer a competência da equipe novaiorquina: o volume facetado que propõe, mesmo estando voltado para o sul, com certeza vai apresentar nuances de luminosidade. Ao contrário de serem suspeitos de esperteza, acho que eles deveriam ser saudados como bons observadores de alguns preceitos corbusianos, em particular ao que diz ser a arquitetura “o jogo sábio e magnífico dos volumes sob a luz”. Ou será sob o sol?



































Uma boa apreciação do livro de Panofsky, feita por Jorge Lucio de Campos, está em
http://sincronia.cucsh.udg.mx/Panofsky.htm

Os desenhos acima são de Zaha Hadid, para o concurso The Peak, de 1982. Alguns fazem parte do acervo do MOMA/NYC

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