23 de ago de 2009

os campana no museu vitra

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fotos: o museu, a exposição e o atelier em São Paulo


O Vitra Design Museum inaugurou uma exposição dos trabalhos dos Irmãos Campana, que ficará em cartaz até fevereiro de 2010. Segue entrevista publicada no jornal "O Estado de São Paulo", em 22/08/2009.

(...)A série Des-Confortáveis foi feita em 1989. Pode-se considerar que é a partir dela que os irmãos Campana tornaram-se designers legítimos?
Humberto: Com certeza.
Fernando: Foi uma tentativa de a gente se tornar escultor. Tínhamos tentado, de 1983 a 1989, fazer tudo com uma superfície perfeita, com mármore e alumínio, e tudo tinha um furinho ou um risco. Os clientes não aceitavam. Quando o Humberto fez aquela primeira cadeira com um espiral eu vi aí uma coisa mais libertária, de desencanar de ser reto...

Existe um quase clichê de que Humberto é a faceta mais sensível da dupla, enquanto Fernando é a mais racional. O que existe de contraparte nisso?
Humberto: O que é sensibilidade? Ele tem a sensibilidade dele. Quando um está fraquejando, o outro vem e socorre os projetos, tudo no trabalho. Eu também tenho meu lado racional, que é trabalhar com as mãos. Tem toda uma racionalidade, não é só intuição.
Fernando: Ele tem essa manualidade, um bordado, e eu consigo fazer isso numa escala maior. Às vezes, ajudo uma semente que está gestando na cabeça dele a ter funcionalidade.

Os criadores, por causa da sensibilidade, são tidos muitas vezes como loucos. O quanto vocês já se aproximaram, de fato, da loucura?
Fernando: Não o suficiente para chegar...
Humberto: Às vezes acho que lido com a loucura. Acho que um criador precisa de sombra. Acho que precisa ir até o inferno para...
Fernando: Mas não a um nível de precisar ser internado. (risos)

O trabalho de vocês é tido como urbano. Quanto de caipira há nele?
Fernando: É muito presente. No tempo da cestaria, a gente pegava as cestas no interior, balaio, e transformava em cestas country para vender no Mappin. E tem o olhar; as soluções caipiras são interessantes. Quem potencializava isso era a Lina Bo Bardi. Eu adorava ver quando ela mostrava no Masp alguma coisa de um designer anônimo.
Humberto: Acho que o nosso trabalho faz essa fusão entre o urbano e o rural, seja por meio dos materiais ou da forma como ele é manufaturado, muito artesanal, o que é muito ligado ao campo.

Como é trabalhar direto um com o outro? Não cansa?
Fernando: Quando a gente briga, fica no máximo um dia sem se falar. Por isso, acho que é bom, dá uma dinâmica. Esgota. Tem uma tempestade. Daí renova toda a água. A gente não tem muito filtro. Além de irmãos, temos cumplicidade, somos amigos. Isso solta a crítica tanto na criação quanto no comportamento.
Humberto: Às vezes sufoca.

Que outras influências destacariam?
Os dois juntos: Niemeyer!
Humberto: Eu nasci quando Brasília foi projetada. Aqueles edifícios no Planalto Central pareciam uns esqueletos de dinossauros. A quantidade de reportagens que saíam na época sobre Brasília... Era o sonho, o futuro. Contaminou muito. Burle Marx também.

A perseverança é um conselho básico que vocês dão a jovens designers no livro recém-lançado. Mas não é preciso ter sorte também?
Fernando: Acho que tem aquele dia certo, em que a medalha está lá. Quando a gente foi mostrar as fotos das Des-Confortáveis na Nucleon 8, na hora quiseram.
Humberto: E também ter encontrado com o Massimo Morozzi.

A transposição do uso de materiais seria o conceito mais adequado de designar seus trabalhos?
Humberto: É a materialidade. Nosso trabalho é muito focado no material.
Fernando: É a subversão... O material vem antes da forma e da função. Ele vai ditar qual a forma e depois vamos elaborar a função. Se a gente for começar um projeto com toda essa carga poética e a matemática da função, a gente fica parado no computador e não sai mais. Tudo tem que sair como poesia e depois tem de se transformar em função num produto.

A Favela ficou dez anos aqui até ser produzida pela Edra. Falta sensibilidade, investimento ou o que mais para a indústria brasileira?
Fernando: Acho que é ousadia. O timing certo do produto. Produto não é moda, que você coloca na vitrine e já...
Humberto: Sabe o que eu acho? A indústria é muito voltada para o consumidor, e o consumidor não é educado para entender o design contemporâneo. Na Europa já tem uma maior compreensão.

Vocês poderiam ter virado totens. Tentam driblar as armadilhas do ego como?
Fernando: Trabalhando. Voltando para o Brasil e ficando aqui no centro. Aí é que está a importância do peso caipira.
Humberto: É a essência mesmo. Acho que, quando o sucesso sobe, você perde o contato com o seu deus interior, com o divino. Para mim é muito mais importante.

Leia a reportagem na íntegra no Estadão: http://www.estadao.com.br/suplementos/not_sup422524,0.htm
O jornal "O Globo" também publica reportagem nesse domingo:
http://oglobo.globo.com/economia/morarbem/mat/2009/08/23/mostra-de-brasileiros-icones-do-design-internacional-nao-tem-patrocinador-no-pais-767282271.asp
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