3 de ago de 2009

penedo
















A história de Penedo, no estado do Rio, é muito peculiar. A cidade nasce com a aquisição de uma grande fazenda por uma comunidade de imigrantes finlandeses, que, diferentemente dos imigrantes em geral, estavam ali por opção: eram técnicos agrícolas, arquitetos, ginastas, professores e outros trabalhadores qualificados (veja a história completa em: http://www.penedo.com/content/view/23/77/ ).
Diferentemente de Mauá, Penedo fica no pé da serra, facilmente acessível para os cariocas. Sua condição de centro turístico ganha força a partir dos anos 70 e a faz crescer desordenadamente. Hoje, a cidade é espacialmente caracterizada por uma grande avenida, ao longo da qual se desenvolve o comércio e onde está a maioria das pousadas. O ponto culminante desta via é um centro comercial, formado por galerias que foram construídas nas proximidades da Casa de Verão do Papai Noel.
Esse conjunto se organiza a partir de um entroncamento banal, o cruzamento da avenida principal com uma rua. Nada no desenho urbano reflete a sua condição de centralidade: não possui espaços públicos amplos nem calçadas largas. Os maiores espaços abertos, são estacionamentos.
Não é difícil imaginar o processo de concepção do lugar: um empreendedor percebe a oportunidade, chama um corretor para discutir o que fazer e quantificar a área a ser construída para viabilizar o negócio, convoca um construtor para fazer algumas projeções de custos. Se necessário mobiliza seus contatos políticos para remover eventuais barreiras.
O arquiteto quase sempre só entra no final e, muitas vezes, quando as próprias características das edificações já estão definidas ( “...será edifício de dois pavimentos”, ou “...vamos projetar uma via de pedestres e dispor as lojas ao longo dela” ou ainda “... vamos fazer algo parecido com o que eu vi em Miami...”).
A ausência do ponto de vista da arquitetura, no sentido mais profundo, da estruturação e qualificação do lugar, resulta em espaços banais, que são continuamente “decorados” e ambientados para torná-los mais atraentes, coisa que funciona até que aos poucos, a superficialidade da concepção fica evidente para os usuários. Isto tem um ciclo relativamente longo, pois implica no uso sucessivo por classes sociais diferentes, mas ao final, o lugar entra em decadência.

Nos anos 80, escrevi um texto que apontava os riscos implícitos no fato de que as reivindicações dos arquitetos, que estavam centradas na formalização de alguns direitos e prerrogativas da profissão, não estavam sendo acompanhadas pelo aprimoramento profissional. Ou seja: não estávamos nos preparando para executar as tarefas que estávamos reivindicando.

Voltando ao exemplo de Penedo, percebo que, com a participação de um arquiteto bem preparado, os resultados espaciais, ambientais e mesmo sociais, poderiam ser melhores. Entretanto, esse profissional é cada vez mais raro. Poucos estão verdadeiramente preocupados com os problemas que a formação dos arquitetos no Brasil enfrenta e mesmo os estudantes, pensam pouco nisso. Basta ver a lista de trabalhos de iniciação científica publicada pelo CICAU (Congresso de Iniciação Científica em Arquitetura e Urbanismo). Os títulos são pomposos, alguns são mesmo pretensiosos, como se fossem teses e dissertações, mas nenhum dos 16 selecionados aborda questões relativas ao ensino.

Parece que até alguns estudantes de arquitetura, assim como os empreendedores, os corretores e os engenheiros querem se fazer de arquitetos, esquecendo-se de que ser estudante é uma das condições mais nobres do ser humano.


















fotos históricas: www.penedo.com
demais: julho de 2009

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