18 de fev de 2007

Social geografia

(Algumas observações a respeito do artigo " Sobre Bacias Hidrográficas como Unidade de Planejamento. Plano Diretor Participativo de Itaúna" de autoria do urbanista Rogério Palhares, publicado no post anterior)


Quando da elaboração do Plano Diretor de Itaúna, estranhei o exclusivo critério de divisão do território em bacias hidrográficas. Sei que essa classificação é tecnicamente defensável, um modo eficaz de descrever o espaço físico, mas acho difícil reconhecer a complexidade da cidade, coisa fundamental para o desenvolvimento das ações de planejamento, apenas pelas bacias que ela encampa.

Reconheço Itaúna quando se fala em Santanense, Morro do Engenho, Angu Seco, Brejo Alegre, Córrego do Soldado, Calambau... Porque será? Certamente porque, como disse Milton Santos, “o espaço se define como um conjunto de formas representativas de relações sociais do passado e do presente, por uma estrutura representada por relações sociais que estão acontecendo diante dos nossos olhos...” Ou seja, a forma do espaço não é só a forma geográfica, mas aquela que a sociedade constrói a partir das suas relações.

Com a evolução da mentalidade humana, o espaço físico perdeu a neutralidade da natureza original e ganhou sentidos diversos. Por outro lado, se a Ciência pode e deve repartir e fragmentar para melhor conhecer, gerando critérios importantes, não é prudente que as diferenças sociais e as aspirações comunitárias sejam simplificadas, apenas porque moramos sob a influência de um mesmo rio. Basta pensar no que ocorreria se considerássemos os povos da Amazônia, com todas as suas particularidades, simples e genericamente como “índios”. Guardadas as devidas proporções, é o que acontece quando nos consideram “habitantes das bacias”: transformam-nos em meros números de estatísticas.

Uma das conseqüências que reputo a essa organização impessoal, que divide uma sociedade humana em função dos acidentes geográficos, foi a baixíssima participação popular nas plenárias realizadas pela prefeitura itaunense, comprometendo o caráter participativo do Plano: parece que poucos se identificaram com as bacias e só se reconhecem como integrantes das comunidades.

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