1 de abr de 2007

Gustavo Penna, arquiteto

1978, 1979... no mundo pré-digital, eu andava pelas ruas atrás das novidades, garimpando arquiteturas. Dois edifícios me chamaram a atenção: um na Gonçalves Dias e outro na Prof. Morais. Logo depois conheci o autor dos projetos e expressei a minha admiração pelas obras. Ele desconversou, minimizando a importância delas... desconfio que já sabia onde poderia chegar.

Gustavo Penna sempre falou sobre o gesto, fundindo no seu discurso, o arquiteto e o edifício, ambos generosos para com a cidade e a natureza. De início, isto me parecia apenas o desejo de imprimir, na arquitetura, as suas grandes qualidades de ser humano, impregná-la da sua sensibilidade poética. Hoje vejo que era o estabelecimento de um marco, o engendramento de uma utopia a indicar direções para a sua concepção dos espaços, pedra que vem sendo lapidada com muita dedicação e com habilidades raras, descobertas no fazer.

Gustavo pensa a cidade em pequenos e grandes gestos. Gestos de inclusão e não de exibicionismo. Gestos com a consciência da monumentalidade, pois ela reverbera a significância humana. Nessa relação ambiciosa e elegante com o urbano, esse arquiteto generoso mostra que a sua formação teve os fundamentos consolidados no período pré pós-modernista, ou seja, numa época em que conceber o edifício era conceber a cidade e celebrar o habitat coletivo. Depois, com o pós-moderno, a arquitetura em Minas fez a atenção se concentrar no objeto e não no espaço. É o que se pode ver na maior parte daquela safra, evidente na Rainha da Sucata, cercada por grades... um objeto guardado.

Gustavo odeia grades e, mesmo nos projetos residenciais ou em áreas urbanas de uso intenso, dá atenção especial aos espaços de transição, àqueles que servem de mediação entre o público e o privado. As suas soluções revelam a tensão entre os dois domínios, mas evitam o conflito. Contribuem para isto, as formas dos seus edifícios, formas que pedem atenção pelo silêncio, contraponto do caos urbano e convite à introspecção, a um momento de intimidade no cerne do coletivo.

Sem querer transformar o ofício de arquiteto em corrida rasa, creio que é do interesse da nossa cultura, reconhecer a excelência da produção desse colega discreto, produção que o coloca, naturalmente e sem reivindicações forçadas, entre os maiores arquitetos do nosso tempo, repercutindo e surpreendendo, sem a pretensão de ineditismo gratuito que marca grande parte da cena mundial. A sua obra testemunha que o meio é a mensagem: é a arquitetura que fala. A qualidade dos espaços não se contenta com promessas literárias e as formas que propõe, caminham do abstrato ao figurativo sem a evasiva do discurso.

A arquitetura é fertilizada por mestres: alguns se fazem pelo mito e outros pelo trabalho. Seja como for, a presença dessas figuras extraordinárias revigora todo o cenário da profissão e do ensino.
Gustavo Penna ocupa esse lugar na arquitetura brasileira.

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