11 de fev de 2007

Ruas, prédios e pessoas

Belo Horizonte é a minha referência natural. Por coincidência, quando surgiu a idéia desse blog, no sábado 10/02, o jornal O Estado de Minas publicou um grande artigo sobre a cidade, de autoria do arquiteto Carlos Noronha: foi a deixa pra lançar o barco.

PUBLICADO NO CADERNO PENSAR, DO JORNAL "O ESTADO DE MINAS" DE 10/02/2007
Ruas, prédios e pessoas
Arquitetura e urbanismo do Centro de Belo Horizonte registram histórias de encontros e desencontros. Mapa da evolução da capital ainda pode ser percebido em edificações, lembranças e ruínas da cidade

Carlos Noronha

"Por que ruas tão largas
Por que ruas tão retas
Meu passo torto
foi regulado pelos becos tortos
de onde venho.
Não sei andar na vastidão simétrica
Implacável
Aqui tudo é exposto
Evidentemente
Cintilante. Aqui
Obrigam-me a nascer de novo, desarmado."

Ruas, de Carlos Drummond de Andrade (Boitempo, 1968)

Drummond nos apresenta em seu poema uma inquestionável comparação entre uma cidade planejada e as nossas tão queridas cidades históricas. Aqui, como nos diz o poeta, é lugar do novo homem, contemporâneo, moderno.
Para concretizar essa quase utopia no fim do século 19, liberdade e autonomia foram dadas ao seu planejador, Aarão Reis, por Afonso Pena, presidente de Minas, e, assim, fez-se possível a implantação de uma nova capital, denominada, até 1901, Cidade de Minas, com um plano moderno para os padrões brasileiros e da recém-criada República.
Belo Horizonte foi idealizada tendo como suporte três aspectos físicos que lhe dão caráter e identidade: a Serra do Curral, o traçado em malhas ortogonais e a canalização a céu aberto do Ribeirão Arrudas. Perdemos um pouco de todos esses elementos: o traçado já sofreu mudanças, a serra não é mais a mesma e a canalização a céu aberto está se transformando em via expressa.
As perdas não são só fatos recentes. Já nas primeiras décadas, o Parque Municipal foi sendo mutilado, juntamente com as praças que existiriam em seus quatro cantos; na década de 1920, a imensidão da Praça Rio Branco perde o antigo Mercado Municipal e são criados quatro novos quarteirões, inclusive interrompendo o acesso direto a ela pela Rua Guaicurus, que hoje poderia ser uma melhor opção. O mesmo ocorreu com a Praça Afonso Arinos, que perde os trechos onde se situam o Automóvel Clube e o prédio da Receita Federal.
Da arquitetura do fim dos anos de 1890, pouco existe, mas duas edificações ainda marcam sua presença: a Imprensa Oficial e a Capela do Rosário. Infelizmente, o templo está em “situação humilhante”, pois o primeiro edifício concluído pela Comissão Construtora da Nova Capital (no Centro, antes mesmo da inauguração da cidade), foi obstruído com a montagem de dois “barracões” para aluguel comercial, onde outrora existiam jardins. Assim, ocorre sua exclusão espacial, e revela como segmentos formadores de opinião ainda (mal)tratam bens culturais simbólicos.
A área correspondente ao Centro da Cidade de Belo Horizonte, polarizada, hoje, pelas praças 7 de Setembro, Raul Soares, Rio Branco e Rui Barbosa, em conjunto com o Parque Municipal, representa uma síntese de toda a cidade. Por cidade entende-se espaços em que há diversidade e uma comunhão entre os diversos segmentos sociais, muito diferente dos dois extremos atualmente exacerbados, que se equivalem em exclusão social: as favelas pouco urbanizadas e os condomínios fechados.
No princípio, a Avenida Afonso Pena, talvez pela sua vastidão, ainda intimidava os usuários. A Rua da Bahia, mais estreita, com uma pequena subida entre Afonso Pena e Paraopeba (Augusto de Lima), era mais acolhedora, além de ser passagem para a Praça da Liberdade, talvez daí a sua centralidade. Sua primazia vai até a década 1910–1920. O edifício Park Royal, hoje Caixa Econômica Federal, foi a grande novidade no início dos anos de 1920, quase um minishopping.
Hoje, as atividades bancárias predominam nesses quarteirões, que impedem uma melhor fruição e permanência. A Rua da Bahia era “o mundo”, em apenas dois quarteirões, como nos fala Pedro Nava em suas memórias.
Mas outros espaços agregavam muito mais cidadãos: o antigo Mercado Municipal, na Praça 14 de Fevereiro (Rio Branco) e seu prolongamento, além da ferrovia, na demolida Praça Vaz de Melo (Lagoinha), bem como a região do Hotel Floresta, na subida da Contorno, local inicial da boemia.
Nessas primeiras décadas, algumas edificações, já demolidas, vão tornar-se referências: o prédio dos Correios, de 1906, onde hoje se localiza o Condomínio Sulacap-Sulamérica; o Teatro Municipal (1906), Bahia esquina de Goiás; o Palacete Guanabara, de 1911, na esquina de Espírito Santo com Afonso Pena; o Cine Avenida; o Grande Hotel, no local do Maleta; e outros palacetes comerciais. Todos com no máximo três pavimentos, pois a legislação urbana de 1901 era taxativa: quatro ou cinco pavimentos só em casos especiais, mais não se permitia.
Com a inauguração do Monumento ao Centenário da Independência – Pirulito (1922-1924) e a saturação dos dois quarteirões mais simbólicos da Rua da Bahia, a Avenida Afonso Pena, em seu trecho do Parque Municipal até a Praça Rio Branco, passa a dar suporte aos espaços dos encontros, das atividades e das festas urbanas.
Os anos de 1920, depois da 1ª Guerra Mundial, trazem uma dinâmica avassaladora. Inicia-se a era dos arranha-céus, com as construções do Banco Comércio e Indústria, na esquina de São Paulo com Caetés, e do Hotel Sul-Americano, na esquina de Caetés com Amazonas, ambos existentes.
O Viaduto de Santa Teresa (1926) e o Cine-Teatro Brasil (1930), projetados pelo escritório de Emílio Henrique Baumgart, causam impacto pela nova estética – ecletismo com elementos do art déco.
Prédios verticalizados para escritórios vão pontuar o Centro na década de 1930: o Edifício Ibaté, Rua São Paulo, 498 (hoje à venda); o Edifício Capixaba, na Rio de Janeiro, 430; o Edifício Guimarães, na Afonso Pena, 952; o Centro dos Chauffers, na Rua Acre; e a Feira de Amostras, projetada em 1933 por um dos maiores escritórios de arquitetura de Belo Horizonte, chefiado por Luiz Signorelli. É desse escritório também o prédio da Prefeitura Municipal, o Minas Tênis Clube, o Automóvel Clube; e ainda o conjunto arquitetônico do Grande Hotel de Araxá. Signorelli é, sem dúvida, o grande arquiteto da década de 1930, assim como foram Edgard Nascentes Coelho e Luiz Olivieri, nas primeiras décadas.

Coração da cidade
A fundação do curso de arquitetura e chegada de novos arquitetos à capital vão redesenhar o perfil do Centro de BH, do impacto da verticalização, em busca de soluções mais equilibradas
Carlos Noronha Renato Weil/EM – 19/1/07
No ano de 1930, inicia-se o curso de arquitetura em Belo Horizonte. Seu ensino ainda era ligado aos conceitos acadêmicos do fim do século 19. Suas primeiras turmas vão produzir, principalmente na década de 1940, grandes edificações protomodernas (uma estética de transição entre o ecletismo e o modernismo): o Acaiaca, de Luiz Pinto Coelho; o Edifício Thibau, Rua São Paulo, 401, de Hermínio Gauzzi; e o Edifício Andrade Campos, Rua da Bahia, 1.065, de Tarcísio Silva.
Depois da saída de Belo Horizonte do arquiteto Luiz Signorelli – um dos nomes mais significativos da arquitetura nos anos 1930 – para dirigir as obras em Araxá, o seu parceiro, arquiteto Raffaello Berti, conquista a clientela dele e passa a produzir grandes edifícios na área central, para o segmento mais conservador, que não adota a moderna arquitetura brasileira introduzida aqui, na Pampulha, por Oscar Niemeyer e Juscelino Kubitschek. São obras significativas, mas que não seguem as tipologias modernistas, como o Edifício Walmap, Rua Carijós, 244; o Edifício Residencial Teodoro, Rua dos Tupinambás esquina de Afonso Pena; o Edifício Indaiá, com frentes para a Avenida Bias Fortes e Rua Santa Catarina; o Edifício Alkasar, na esquina de Bahia com Carijós, e outros.
Arquitetos não-residentes em Belo Horizonte também projetam na década de 1940, na cidade, edifícios protomodernos, como o INSS, de Luiz Eduardo Pereira, na Avenida Amazonas esquina de Tupinambás; o Edifício Mariana, na Rua São Paulo esquina de Avenida Afonso Pena, de autoria de Mário dos Santos Maia; e o Conjunto Sulacap-Sulamérica, de Roberto Capello, considerado por pesquisadores como o de melhor implantação na área central. Lastimável foi a eliminação de seus jardins frontais, para construção de um anexo, em 1972, que o fez perder toda a sua singularidade.

Verticalização
Mas quem introduz os edifícios verticais modernos na cidade são dois arquitetos cariocas, renomados: Paulo Antunes Ribeiro, com o projeto de 1944 do Edifício Pedro Dutra, na Rua Espírito Santo, 500; e Álvaro Vital Brasil, com o projeto de 1946 para o Edifício do Banco Hipotecário e Agrícola de Minas Gerais, na Praça 7 de Setembro, hoje Banco Real. Só na virada dos anos de 1940 para os de 1950 é que um aluno formado em arquitetura em BH vai projetar um edifício vertical seguindo os conceitos da moderna arquitetura brasileira: Raphael Hardy Filho, com o projeto da atual Secretaria do Tribunal de Justiça, na Rua Goiás, 229, que em seu hall exibe um belíssimo painel de Di Cavalcanti.
Formados em 1944 e 1945, respectivamente, os arquitetos Sylvio de Vasconcellos e Eduardo Mendes Guimarães Júnior vão polemizar na mídia com artigos em defesa da moderna arquitetura, muitas vezes sendo ferinos com as obras do passado. Deve-se lembrar que, naquele momento, havia uma querela, que intimidava alguns profissionais, envolvendo JK/Niemeyer e os conservadores seguidores de dom Cabral, arcebispo de BH, em relação às obras edificadas na Pampulha e em especial sobre a Igreja de São Francisco de Assis. Em um capítulo do livro de Augusto de Lima Júnior, Arte religiosa, o “assessor” de dom Cabral pontuava: “O autor dessas construções foi conhecido arquiteto comunista e, por conseguinte, ateu, e como tal sem limitações nos seus caprichos (...) O arquiteto levantou a trapizonga que ninguém sabe o que significa”, e complementa: “Uma outra trapalhada é um fingimento de cruz com a travessa transformada em poleiro ou assento confortável de onde satã pode conversar calma e confortavelmente com o sr. Kubitschek. É a cruz do Kapeta...” Contrariando o autor, a Pampulha é hoje uma referência mundial para a arquitetura moderna. E Belo Horizonte tem o privilégio de ser um marco na trajetória de Niemeyer, um dos maiores arquitetos de todos os tempos.
Os arquitetos mineiros, com a repercussão da moderna arquitetura brasileira, vão edificar um conjunto de obras na área central da capital, propiciando o melhor momento da arquitetura vertical na cidade, desenvolvida nos anos de 1950 e 1960. São novas soluções em planta, em acabamentos e na estética. Além de representar a consolidação, na capital, da nova forma de morar: os edifícios de apartamentos, que se disseminam nos quarteirões entre a avenida Afonso Pena e a Rua dos Guajajaras.
A Avenida Afonso Pena, nos anos de 1960, passa pela segunda vez (a primeira foi ano de 1930) pela retirada da massa verde, dessa vez com o corte definitivo de sua densa vegetação, para ampliar as áreas de estacionamento e circulação de veículos. Logo a seguir, no fim da década, ocorre uma expansão do Centro na área hoje denominada Savassi, que se transforma, nos primeiros anos, em local sofisticado de comércio e serviços.
A partir dos anos de 1970, cai o número de edificações novas, principalmente com a abertura de outros espaços propícios à verticalização, em diversos vetores urbanos, com as regras impostas pela Lei de Uso e Ocupação do Solo de 1976.

Viadutos e túnel
Embora com um número pequeno de novas construções particulares, o Centro vai receber grandes investimentos: o terminal rodoviário e o complexo viário da Lagoinha (concluídos no início dos anos de 1970) com grandes viadutos, além do término do túnel da Lagoinha. Os viadutos serviram de chacotas, pois a solução adotada permitia cruzamentos de veículos na sua parte superior, daí a sua forma em xis . Os cruzamentos foram logo interceptados. A proposta implantada mostra, hoje, a inoperância do complexo, que será ainda mais sobrecarregado com o alargamento da Avenida Antônio Carlos, da nova via expressa, chamada Bulevar, e da Linha Verde. A retirada de tráfego de passagem da área central ainda é um sonho sem previsão. O que ocorre é que nunca testaram soluções mais ousadas para o tráfego no Centro. Falta de bons planejadores? Parece que sim.
Ainda na década de 1970, após longa espera, Belo Horizonte finalmente tem o seu grande teatro, o Palácio das Artes, e a prefeitura investe em melhorias urbanas, adotando o fechamento de quatro quarteirões na Praça 7 de Setembro. Com a conclusão da retificação da canalização a céu aberto do Ribeirão Arrudas, põe fim a um longo período de inundações que levaram as áreas ao longo de seu percurso a um processo de estagnação e deterioração.
Já nos anos de 1980, modificações físicas pontuam o eixo da Afonso Pena, com a volta do Pirulito, retirado nos anos de 1960, e a configuração da nova Praça Rio Branco, que desagradou a muitos. Criou-se uma elevação, desnecessária ao novo projeto. A aridez da solução e a não permissão de árvores e bancos criaram um “espaço morto”. Sem desmerecer a boa “estética” do monumento Liberdade em equilíbrio, de Mary Vieira, consagrada artista plástica, a intervenção configurou-se inadequada às características do local. As modificações ocorridas foram em vão. O espaço continua inadequado como praça. Os bancos foram postos no local mais impróprio para a permanência: na parte extrema, junto ao tráfego pesado que descarrega forte ruído e poluição sobre os usuários.
Da década de 1990 até os anos recentes, ocorrem constantes investimentos públicos na requalificação dos espaços centrais. Desde intervenções de melhorias no Parque Municipal à criação de centros culturais (Centro Cultural Belo Horizonte e Centro Cultural da UFMG); revisão dos pisos dos passeios; nova ambiência para a Rua dos Caetés e trecho da Rua Rio de Janeiro. Este último investimento é um bom começo, mas faltam espaços sombreados para permanência e apoio às penúrias da população, nas intermináveis filas de espera nos pontos de ônibus, escancarando a inadequação do serviço de transporte de massa.
A nova estética para os quarteirões fechados da Praça 7, apesar de necessária e de atender as reivindicações por melhorias de comerciantes e usuários, não é a mais adequada. As desnecessárias estruturas espaciais, além de má qualidade estética (não merecem ser tituladas de esculturas), contrariam a legislação de proteção ao patrimônio, que proíbe artefatos que comprometam a visibilidade de bens culturais. É o caso das “vigas e coberturas” desnecessárias, edificadas em três dos quatro quarteirões fechados, que impedem plena visibilidade das fachadas do Psiu (Rua dos Carijós), do Cine Brasil e Edifício Walmap (Rua dos Carijós), e do Edifício Capixaba (Rua Rio de Janeiro), um dos primeiros para escritórios construídos na cidade. São tantos objetos que se torna difícil a entrada de um carro do Corpo de Bombeiros, se necessário. É claro que a população não questiona, pois do jeito que o espaço estava “qualquer coisa é lucro”. Podiam – e deviam – ter uma melhor ambiência. Há de ressalvar que o piso e alguns bancos propiciam conforto.
A iniciativa privada vem, aos poucos, respondendo com grandes investimentos na região. A construção do Shopping Cidade representou uma oxigenação para a região, a partir de 1991. A parceria com o município permitiu a retirada de camelôs de vias centrais e a instalação de shopping populares, que estão dinamizando os espaços por eles impactados. A retirada de placas publicitárias abusivas permite a maior visibilidade do cenário urbano.

Lazer e cultura
A concretização do Museu de Artes e Ofícios e a nova Praça da Estação ganham destaque, sendo esta, sem dúvida, a melhor intervenção das muitas ocorridas. Novos investimentos na área cultural estão em fase de conclusão e planejamento: o Cine-Teatro Brasil, o ex-Cine Palladium e a antiga 104 Tecidos serão novos espaços de lazer e cultura. A prefeitura investe agora em projetos de melhorias na Praça Raul Soares e no entorno do Mercado Municipal, possibilitando maior fruição e segurança.
Os centros históricos de grandes metrópoles vão se consolidando como espaços de lazer, cultura, atividades comerciais e de serviços para toda a população. Como lugar para todos, os investimentos, parcerias e decisões não podem perder, nas suas conceituações, o atendimento às necessidades de seus reais usuários, aqueles cidadãos, de todas as idades, que por lá transitam e interagem cotidianamente.
Talvez a lembrança de um pequeno trecho de uma crônica de Alfredo Camarate, arquiteto e jornalista, na época da inauguração, ainda no século 19, falando sobre a nova capital e o gosto “exagerado” do ornamento nas construções possa servir de reflexão para os novos empreendimentos: “Podemos nos gabar de haver construído a melhor cidade do Brasil. Somos grandes, ousados, modernos! É verdade; mas poderíamos ser tudo isso, conservando as duas mais louváveis virtudes dos mineiros: a simplicidade e a despretensão".

Carlos Noronha é arquiteto urbanista e pesquisador da Fundação João Pinheiro

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