14 de fev de 2007

Ruas, prédios e pessoas: será uma Cidade?

Algumas observações sobre o artigo Ruas, prédios e pessoas, de Carlos Noronha, publicado no post anterior.

Antes de qualquer coisa, é preciso saudar o discurso de um arquiteto, ocupando espaço tão marcante na mídia impressa mais importante do estado, mais ainda quando se trata de um reconhecido estudioso da cidade. Carlos Noronha aviva a nossa combalida memória com fatos marcantes na história desta aviltada Belo Horizonte, dama exuberante, violentada por anos e anos no bordel urbanístico gerenciado pelos arquitetos, e que agora recebe, mais uma vez, uma máscara esteticizante.
Se mortuária ou rejuvenescedora, saberemos logo.

Percebi o artigo “Ruas, prédios e pessoas” sendo desenvolvido ao longo de três eixos de argumentação: informações históricas, críticas à gestão da cidade e uma comedida aprovação das ações atuais, empreendidas pela administração pública. No primeiro eixo, os personagens foram todos identificados, no segundo são obscuros, no terceiro eixo, os agentes estão subentendidos.
Entendo não ter sido necessário apontar os autores dos projetos dos quarteirões fechados da Praça Sete mas, porque não nomear os autores dos celebrados projetos da Praça da Estação, do Bulevar Arrudas, da Praça Raul Soares, do Museu de Artes e Ofícios?
Ainda no caso da Praça Sete, a crítica dura e em certos aspectos pertinente, exigiria maior clareza dos argumentos: o que Noronha quer dizer com intervenções de “má qualidade estética” ou que “não merecem ser tituladas de esculturas”? Igualmente, daria uma boa discussão a exigência da legislação de proteção ao patrimônio, quando “(...) proíbe artefatos que comprometam a visibilidade de bens culturais”: não é o que fazem as torres de luz da Praça da Estação, ofuscando os passantes e os usuários?
Por fim, se são quatro quarteirões e um escapa da execração, porquê não identificá-lo?. Aqui, Noronha perdeu a oportunidade de ampliar o senso crítico dessa população que “não questiona, pois do jeito que o espaço estava ‘qualquer coisa é lucro”.

Por outro lado, teria sido esclarecedor, ao menos sinalizar os períodos nos quais agiram os maus planejadores e identificar o limite entre a falta de ousadia e a incompetência, para que saibamos do que se está falando. É a superficialidade com que tratamos aberrações como o complexo da Lagoinha, celebrando o equacionamento dos seus equívocos, que permite a permanente violência perpetrada pelas obras viárias sobre a cidade. O exemplo atual, é o dos viadutos da Linha Verde, e em especial ao da Silviano Brandão com Cristiano Machado: mal proporcionado, sem noção de ritmo, cheio de elementos gratuitos e de afetação, sem falar da agressão à paisagem urbana, ao gerar espaços residuais de evidente feiúra e cuja apropriação tem futuro incerto.
Já que a Linha Verde é citada como melhoria, num contexto que discute a estética urbana, supõe-se que nesse aspecto, os planejadores de hoje são melhores que os de ontem. Serão?

Ao longo do artigo, Noronha aponta, com a elegância que o caracteriza, vários e graves problemas que assombram a nossa cidade, começando por uma síntese, sobre a qual parece que devemos nos calar:
“Belo Horizonte foi idealizada tendo como suporte três aspectos físicos que lhe dão caráter e identidade: a Serra do Curral, o traçado em malhas ortogonais e a canalização a céu aberto do Ribeirão Arrudas. Perdemos um pouco de todos esses elementos: o traçado já sofreu mudanças, a serra não é mais a mesma e a canalização a céu aberto está se transformando em via expressa”.
Observador e analista competente, Noronha prossegue:
“Da arquitetura do fim dos anos de 1890, pouco existe, mas duas edificações ainda marcam sua presença: a Imprensa Oficial e a Capela do Rosário. Infelizmente, o templo está em “situação humilhante”.
“Por cidade entende-se espaços em que há diversidade e uma comunhão entre os diversos segmentos sociais, muito diferente dos dois extremos atualmente exacerbados, que se equivalem em exclusão social: as favelas pouco urbanizadas e os condomínios fechados.”
“A retirada de tráfego de passagem da área central ainda é um sonho sem previsão. O que ocorre é que nunca testaram soluções mais ousadas para o tráfego no Centro. Falta de bons planejadores? Parece que sim”.
Sobre a Praça Rio Branco: “O espaço continua inadequado como praça. Os bancos foram postos no local mais impróprio para a permanência: na parte extrema, junto ao tráfego pesado que descarrega forte ruído e poluição sobre os usuários”.
E sobre o cotidiano: “(...)faltam espaços sombreados para permanência e apoio às penúrias da população, nas intermináveis filas de espera nos pontos de ônibus, escancarando a inadequação do serviço de transporte de massa”.

Entretanto, mesmo diante da gravidade das questões observadas, Carlos Noronha conclui suas observações com otimismo, o que acaba sendo conveniente à timidez dessa administração encastelada no poder por tempo excessivo. Talvez inadvertidamente, o texto envereda por um terreno perigoso, ao juntar uma lista de obras em execução na cidade, com as perspectivas das cidades desenvolvidas, ricas e bem administradas. Afirma Noronha:
“Os centros históricos de grandes metrópoles vão se consolidando como espaços de lazer, cultura, atividades comerciais e de serviços para toda a população. Como lugar para todos, os investimentos, parcerias e decisões não podem perder, nas suas conceituações, o atendimento às necessidades de seus reais usuários, aqueles cidadãos, de todas as idades, que por lá transitam e interagem cotidianamente”. Berlin? Barcelona? Beijing? Ainda estou na letra B... Queremos Belo Horizonte entre elas, mas já podemos colocá-la?
Ora, o último grande investimento privado no centro de Belo Horizonte foi, conforme o próprio texto, o Shopping Cidade, em 1991, dezesseis anos atrás, portanto. Os shoppings populares colocaram Ciudad Del Leste, no Paraguai, como modelo urbanístico e são a imagem da degradação e da barbárie arquitetônica, patrocinada pela Prefeitura e legitimada por seus arquitetos. Além disso, o centro continua sendo perigoso para quase todos, configurando-se como um lugar de segregação e violência: velhos são agredidos, adolescentes são repelidos e mulheres desrespeitadas.
É importante assinalar que “da década de 1990 até os anos recentes, ocorreram constantes investimentos públicos na requalificação dos espaços centrais”, embora também seja útil a informação complementar de que planos “audaciosos” como a revitalização da Lagoinha e da Rua da Bahia foram fracassos retumbantes. Aqui, ficamos carentes de uma avaliação crítica: quais os benefícios desses investimentos? Mais à frente, ao festejar a “revisão dos pisos dos passeios”, o problema da avaliação se agrava: os pisos do centro são, via de regra, esburacados, desnivelados e invariavelmente imundos, graças à genial calçada portuguesa, de difícil limpeza e conservação. Claro, ainda existe esperança, mas precisamos de algo mais sólido do que marketing e maquiagem.

O artigo é finalizado com uma repreensão ao arquiteto Alfredo Camarate quando o mesmo disse que:
“Podemos nos gabar de haver construído a melhor cidade do Brasil. Somos grandes, ousados, modernos!” Camarate estava certo: tivesse sido preservada, Belo Horizonte estaria entre as cidades mais belas do mundo. Para Noronha, “(...) poderíamos ser tudo isso, conservando as duas mais louváveis virtudes dos mineiros: a simplicidade e a despretensão".

Simplicidade e Despretensão: não foram estas, as qualidades que construíram Ouro Preto nem a Pampulha e não foi sob esse signo que se edificou a capital de Minas. Entretanto, tais armas se justificariam como ardil, fosse para obter, junto aos governos federal e estadual, as verbas necessárias à elaboração e execução de um plano verdadeiramente estruturador das nossas possibilidades futuras.

Os arquitetos, que nos primeiros anos da cidade, souberam engrandecê-la com seus projetos, precisam retomar o seu papel civilizador, fugindo da maldição implícita na frase de Oscar Wilde:
“Ensinamos as pessoas a se lembrarem, mas nunca as ensinamos a seguir em frente”.

Talvez aí, na valorização do esforço empreendido para prosseguir, esteja o mérito do otimismo de Carlos Noronha.
Pena que as ações públicas, privadas e profissionais sejam tão tímidas e erráticas.

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