28 de mar de 2010

Um exercício de metacritica ou, três momentos de Serapião 3

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Um carioca em Minas
O terceiro texto de Serapião é sobre o Centro Administrativo de MG, projetado por Niemeyer, em Belo Horizonte. O texto é curto e veiculado no ambiente extra-profissional de um jornal paulista, mesmo assim é inevitável que o autor seja visto com a autoridade de um arquiteto que fala de uma obra, ou seja, para o leitor, é uma opinião abalizada e técnica.
Serapião escorrega logo no título: “Ao mirar o futuro, Aécio acertou o passado”. A escolha é indecorosa porque o crítico usa da sua posição de arquiteto para, através de uma aparente análise da obra, atacar o cliente, no caso um político. Não que um arquiteto não possa ter posições, mas no caso, não sendo ele um analista político, seu papel é emitir uma opinião profissional acerca da obra.
Entretanto, também ao falar da obra a análise de Serapião é absolutamente indigente. Na casa de SantaTereza, a reutilização por parte de Bucci, de um repertório de soluções aplicadas a outros projetos, numa expressão que nem é tão original e própria assim, é tida como mérito. Quando se trata de Oscar, considera-se o caso como de “projeto de gaveta”. Um mínimo (ou será o máximo?) de coerência é o que se espera de um crítico.
O edifício das secretarias é envidraçado e voltado para muitas orientações, mas a casa carioca tem os quartos voltados para o poente... não em Minas, mas no Rio de Janeiro, com seu verão ameno. A eficiência energética tão cara a Serapião num caso, no outro é omitida.
É possível sim, criticar a solução de Niemeyer quanto ao uso do ar condicionado, embora essa seja uma solução quase inevitável, dadas as características contemporâneas das organizações administrativas. Há que se acrescentar que dispomos hoje de meios de controle do desempenho do ar condicionado, que minimizam as perdas decorrentes da insolação. Assim, não estamos diante de um “erro primário” mas de uma decisão projetual a ser discutida conceitualmente e não criminal ou politicamente. Tenho um amigo fazendo doutorado sobre esse tema, talvez fosse melhor que ele abandonasse os estudos e passasse a fazer manifestações em Copacabana.

A busca de estruturas arrojadas é recorrente na obra de Niemeyer e Serapião ironiza perguntando se o “ineditismo técnico” seria de “suma importância para a humanidade”. Ora a resposta é sim e não, mas antes de entrar nessa seara há que lembrar o entusiasmo do crítico diante da casa de Santa Tereza: “ (...) o destaque é a estrutura. O pavilhão alto é um grande pórtico com vão de 15 metros, apoiado em quatro pilares que, semiocultos por duas empenas laterais, são revelados ao tocar o solo.” A solução é tola mas o entusiasmo com a estrutura é volátil: vãos de 15 metros são notáveis, mas edifícios suspensos e vãos de 147 mts são fora de moda.
Sim, conforme nos lembra o articulista, o Hotel Quitandinha é um grande bloco curvo, mas sua semelhança com os escritórios da Cidade administrativa termina aí. Para início de conversa, no projeto de Minas, os blocos são dois, que formam um conjunto. Só essa diferença já seria suficiente para desqualificar a comparação: quem não percebe a diferença entre uma composição de dois blocos e um edifício isolado? Além do mais as proporções, a dupla curvatura, a solução dos apoios e o contexto, são completamente diferentes. Portanto, essa informação solta como foi, num ambiente leigo, é pura vigarice intelectual.
















a Mondadori, citada por Serapião(cujo princípio estrutural é o mesmo do Palácio Tiradentes) e o Quitandinha: referencias distantes


Segundo Serapião, o equivoco do projeto é acompanhado pelo equívoco da decisão de concentrar num só lugar a administração pública mineira. Para ele a idéia "é tão nova quanto um bonde”. Com um pouco mais de atenção, ele perceberia que é uma idéia ainda mais antiga do que os bondes: toda a história da humanidade está pontuada pela construção desses centros de grande simbolismo. Por outro lado, não é com um parágrafo apenas que se vai contestar a solução urbanística de induzir o desenvolvimento do setor norte de Belo Horizonte, o que reforça a tese de que o seu discurso tem intenções políticas e não arquitetônicas.
Tendo começado o seu texto pequeno e cheio de inconsistências com uma tolice, Serapião o encerra com uma outra maior ainda, ao sugerir que se deveria apostar “na capacidade arquitetônica” da geração atual. Ora Fernando, gerações não possuem capacidade arquitetônica: são os arquitetos, independentemente da idade, que a possuem. Para isto, uma instância crítica de maior qualidade seria uma grande contribuição.



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3 comentários:

André Amaral disse...

Parabéns, excelente análise professor. Mostra bem a incôerência do "crítico" ao escrever sobre os projetos. (Tendência ou Incompetência?)

Eu, particularmente, praticamente ignoro os textos da PROJETO e procuro fazer minha própria análise de cada projeto.
Não parece que Serapião escreve para arquitetos. Aliás, as revistas PROJETO e AU analizam os projetos de forma MUITO superficial.

Abraço

sergio machado disse...

É a tradição brasileira, André.

Andre Amaral disse...

Pois é, deixam sempre aquele gostinho de quero mais. Mais detalhes, desenhos, cortes. Seria melhor colocarem 1, 2 bons projetos por revista, mas que fossem mais "debulhados".

Abraço mestre.