28 de mar de 2010

Um exercício de metacritica ou, três momentos de Serapião 1

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Com as atribulações de final de ano, deixei passar em branco a publicação da Casa em Paraty, do arquiteto Marcio Kogan, cujo trabalho atingiu um alto grau de excelência já há muito tempo, tendo merecido amplo reconhecimento da crítica internacional.
A casa é esplendida. Da organização dos espaços às proporções, à escolha e o tratamento dos materiais, tudo nela é sensibilidade.
Segundo o autor do texto, o programa foi resolvido em formas ortogonais, contidas em volumes regulares. Tal procedimento, comum na arquitetura desde a Babilônia, é aqui levado a uma condição pós-moderna, pelo modo como os percursos são trabalhados e pela valorização sensorial dos materiais. Penso que, como é uma estratégia tradicional, tal partido não precisa ser alardeado, exceto se for como pré-requisito à aceitação do projeto em certos círculos (trato disso mais à frente).

Como em muitas outras oportunidades, Kogan não se deixa levar pelo artifício fácil do sistema estrutural espetacular ou pelo contentamento infantil daqueles que conseguem apoiar uma caixa imensa sobre quatro pilares. Para ele, a busca de proporções mais provocantes certamente supera o malabarismo, o que fica evidente na sala de estar e no grande balanço dos blocos, que buscam a emoção e não o recorde, a proeza.














O Patinho Feio
Insisto em classificar a obra de Kogan como pós-moderna, por que ela amplia a importância dos sentidos e é permeável ao contexto físico-cultural na arquitetura, salvando-a da frieza e do esquematismo nos quais o modernismo se meteu. Além disso, ele organiza os espaços de um modo sofisticado e diferente do imediatismo que o tardo-modernismo impôs, gerando percursos e domínios cuidadosamente configurados.

Classificar o trabalho de Kogan como pós-moderno também nos expõe ao patrulhamento pesado que a tal “escola paulista” exerce. Um peso que se faz morto na medida em que seus admiradores a consideram acabada e definitiva: parece que tudo de importante na arquitetura foi inventado ou foi sintetizado ali, no colo de Artigas e com uma mãozinha ora de Mies, ora de Corbusier. Sim, admitem-se precedentes e, na visão do crítico Fernando Serapião, até Wright poderia ser um deles, por seu projeto do Unity Temple, em Chicago: “(...) por ser um cubo de concreto, com amplo espaço interno iluminado pelo alto, o templo quase corre o risco de ser definido como matriz do ideário da escola paulista. Quase: falta a clareza estrutural.

Ora, afirmar que o projeto do Unity Temple não é estruturalmente claro equivale a dizer que as Ferraris não tem espaço pra cadeirinha de criança. Ou seja, não significa nada. O mito da estrutura ainda assombra parte dos arquitetos brasileiros os quais negam a validade de outras abordagens que não tenham o construtivo como determinante da expressão e da organização dos espaços. O olhar “paulista” (ele mesmo o define assim) de Serapíão também não entende bem a ornamentação art-deco dos interiores, definindo-a como “ (...) uma espécie de ornamento geométrico...”. Bem sucedida ou não, a linguagem de um projeto deve ser entendida dentro da sua própria lógica: a estrutura aparente é parte de um vocabulário e a ornamentação faz parte de outro. Elas até podem coexistir, mas não faz sentido reclamar, por exemplo, da falta de ornamento nas paredes dos projetos de Paulo Mendes da Rocha.

Voltemos a Marcio Kogan, que na cena paulista é tratado de modo diferente dos “herdeiros autênticos” de Artigas e dos cavaleiros de Paulo Mendes. A solução da casa de Paraty parece ser uma espécie de ingresso nesse clube de arquitetos que fazem casas quadradas sobre quatro apoios, ingresso assegurado pelo uso do concreto e dos volumes simples, não obstante os resultados tão diversos. É como se fosse necessário render-se ao grupo dominante para ser reconhecido, mas essa submissão exigida tem como preço a desqualificação da obra anterior de Kogan, por Serapião.
Num trecho da sua análise, o crítico afirma que: “(...) acrescente-se à trajetória da arquitetura de Kogan o caráter tectônico que, com vagar, os volumes vão ganhando, com estrutura mais clara e realista - que, de certa forma, também o aproxima dos colegas paulistas.” Ora, o que quer dizer esse “com vagar”? Pesquisem a obra do arquiteto e vocês verão projetos de altíssima qualidade realizados há muito tempo. O tom do discurso é tão indulgente quanto aquele usado pelo Imperador para convencer Luke Skywalker a aderir ao lado negro da Força, em Guerra nas Estrelas.
A expressão “em franca evolução” aparece duas vezes nos primeiros parágrafos do texto, mas o que se quer confirmar mesmo é a “prova de maturidade“ do arquiteto: ambas expressões representam um reconhecimento esnobe e limitado da qualidade do trabalho.

Ao finalizar o seu texto, Serapião não deixa dúvidas de que, para ele, a obra de Kogan é uma conjunção de fatores na qual o talento do arquiteto não tem qualquer importância. Diz o texto:
“Esse percurso do trabalho de Kogan pode ser creditado a quatro fatores. Em primeiro lugar, e mais importante, está a maturidade profissional. Em seguida vêm o constante mergulho na cena contemporânea internacional, o trabalho em equipe - com a participação efetiva de colaboradores na criação - e a demanda de clientes exigentes.”
Para mim, esse é o perfil de um profissional experiente, bem informado, bem assessorado e muito exigido por clientes esclarecidos e não o conjunto de atributos de um arquiteto criativo, o que Marcio Kogan sem dúvida alguma é.

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