14 de mar de 2010

Sérgio Bernardes e o arquiteto prospectivo.

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Hotel Tambaú, em João Pessoa, projetado em 1966, por Sérgio Bernardes

No início de 1982, fui convidado para elaborar a programação do 1º Encontro Brasileiro de Arquitetura, que efetivamente foi realizado naquele ano, em Belo Horizonte, com a presença de mais de 500 arquitetos de todo o país. Os autores da idéia foram Éolo Maia, João Diniz e Sylvio de Podestá, dentre outros. Analisei a questão e, ao invés daquele tradicional desfile de estrelas apresentando os seus projetos, que até tem lá o seu encanto, propus uma temática mais reflexiva, que resultou no título do encontro: Visões Contemporâneas.
A idéia era estruturar o evento convidando dois arquitetos de peso na arquitetura brasileira, mas que andavam esquecidos: Sérgio Bernardes e Paulo Mendes da Rocha. A reação inicial do grupo foi cautelosa, indagando se eles não representariam o passado, num evento que objetivava o contemporâneo. Ao final todos cederam às evidências acerca da necessidade de reincorporar aqueles dois gênios à cena brasileira.
Bernardes estava morando num pequeno apartamento em Ipanema e logo se entusiasmou com o convite. Paulo Mendes atendeu, ele mesmo, o telefone (hoje a fila de espera para obter uma entrevista sua deve ser de semanas ou meses) e imediatamente concordou em vir.
Sérgio Bernardes chegou para a palestra de abertura de mãos vazias... trazia no bolso apenas um slide: a primeira imagem da Terra vista do espaço, sem a presença de nuvens. Uma montagem que havia demorado anos para ser feita. Sérgio participava de grupos de discussão da NASA, daí estar de posse daquela foto magnífica e falou sobre as relações do homem com a natureza, das possibilidades dos assentamentos humanos e de tudo mais que interessa à arquitetura e aos arquitetos, a partir daquela única imagem.

Estava ali, diante da platéia embevecida, um dos poucos arquitetos brasileiros com uma noção de realismo diferente daquela que já predominava na época e que hoje é quase unânime, noção essa que se apega a um realismo legalista e pseudo social, aparentemente defendendo a ordem e o bem estar coletivo, mas que deixa poucas brechas ao necessário e efetivo projeto de futuro.
Bernardes ousava pensar o novo, certo de que as leis decorrem do reconhecimento daquilo que pode ser melhor para a sociedade, e que elas não podem ser apenas instrumentos de cerceamento da liberdade.

A arquitetura brasileira padece desse mal. Só se pensa no que é legal, e pouco se questionam as leis, para que elas evoluam. Daí, a cada reformulação dos códigos, vemos mais do mesmo.
Pensem no Hotel Tambaú, em João Pessoa, construído em 1966. No Brasil de hoje não seria possível construí-lo devido às leis de preservação do meio ambiente, que são, em grande parte, um instrumento de punição para maus projetos e ações irresponsáveis. Mas, pergunto: o projeto desse hotel está na mesma categoria do lançamento de esgotos na praia? Para os legisladores, parece que sim, mas o pior de tudo é que os arquitetos cada vez menos pensam naquilo que a lei não permite.

A arquitetura pode estabelecer relações com a natureza que não sejam de mera submissão, coisa que as culturas avançadas descobriram há séculos, e que estão representadas no século XX por diversos projetos como os da Baia de Tokyo, o do Sea Ranch, o de Taliesin West, do Centro Cultural de Tjibao e muitos outros.
Recentemente, o Ministério Público de Pará de Minas, rejeitou a liberação de algumas áreas dentro da Área de Preservação do Cristo, para pequenas construções de cunho cultural, como se a arquitetura não tivesse resposta para a delicadeza implícita em intervenções desse tipo.

A Lei de Uso do Solo de BH, tem vícios semelhantes, que atestam o caráter punitivo em detrimento da evolução e que partem do princípio de que os arquitetos sempre farão alguma tolice e precisam ser tutelados o tempo todo.
Nela existem as chamadas ADE’s, cerca de 18, que são definidas como áreas que “...por suas características, exigem a implementação de políticas específicas, permanentes ou não, podendo demandar parâmetros urbanísticos, fiscais e de funcionamento de atividades diferenciados, que se sobrepõem aos do zoneamento e sobre eles preponderam.”
A sua mera existência já me parece ser uma distorção, um atestado de que a cidade foi considerada como massa comum, com alguns poucos pontos diferenciados. Se as ADE’s são definidas como instrumentos de ordenação de áreas especiais, pergunto: qual região da cidade não possui lugares que merecem tratamento especial?
E mais, porque o especial implica em restrição? O parágrafo segundo diz: “Os parâmetros urbanísticos relativos a coeficiente de aproveitamento do solo, quotas de terreno por unidade habitacional e taxa de permeabilização das ADEs que vierem a ser instituídas por lei específica devem ser iguais ou mais restritivos que os da zona em que se localizem.” Qual o motivo da bronca? Em certas circunstâncias os parâmetros não poderiam ser mais flexíveis ou generosos?

A parcialidade da abordagem transparece em muitos pontos: o bairro Buritis precisa de um controle de densidade, por culpa da própria Prefeitura, que não exigiu um dimensionamento viário adequado na época da aprovação, mas o Gutierrez não precisa desse controle também? Santa Tereza é considerado histórico, mas o Prado, onde moravam os maiores construtores italianos da época da construção da capital, com seu traçado irregular e casas primorosas, está indo abaixo. O bairro da Serra é o único onde as vistas da Serra do Curral precisam ser preservadas? Discordo: a Serra do Curral é mais impressionante vista do bairro dos Caiçaras, na zona Norte da cidade: alí não tem ADE...
Por outro lado, o Vale do Arrudas, que poderia ser um valioso braço na revitalização do centro da cidade, não foi objeto de qualquer definição, apenas se faz a mera constatação da sua importância. A definição dessa área não afeta as demais?
Sim, é preciso reconhecer que tudo isso é muito complexo, mas, sem um sonho, a cidade é apenas um aglomerado legalmente organizado.

Voltemos ao Sérgio Bernardes. Além de um hotel mar adentro, ele propôs o uso do espaço aéreo dos leitos das ferrovias do Rio de Janeiro para a construção de condomínios habitacionais. Propôs um conjunto de casas na Ilha Grande, em contato direto com a floresta, mas suspensas por cabos...
Bernardes não se julgava dono da verdade, embora absolutamente convicto das suas idéias: sabia que a utopia aponta uma direção, mais do que um resultado.
O mundo está cheio de arquitetos assim, enquanto a glória brasileira é aprovar um projeto na prefeitura, sob o crivo de gente que, na sua maior parte, despreza o nosso trabalho.
Recentemente o IAB lançou uma campanha para obter algo quase cômico, se não fosse trágico: o atendimento cortês, ou o fim das humilhações impostas aos arquitetos, por parte dos funcionários da prefeitura de BH.
Nas últimas décadas, o setor de aprovação de projetos da PBH, com sua implicância, arrogância e volatilidade interpretativa, tem jogado os construtores, sempre chamados de especuladores, no colo de arquitetos medíocres, cujo único mérito é conhecer os caminhos da aprovação de projetos, caminhos esses azeitados pelas relações pessoais e facilitados pela indigência arquitetônica.

Uma boa legislação deveria incentivar boas práticas. Estou tão certo disto quanto de que práticas profissionais muito aquém do estado da arte de uma disciplina, são também fruto de uma legislação ruim.





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2 comentários:

Anônimo disse...

Ao colega,Sérgio,vamos sempre nos lembrar que "a vida nasce do caos"!É certo que a Arquitetura está cerceada, mas vejo, melhor assim!, porque se estivessemos livres e bajulados, certamente iríamos desaparecer no lodo do ostracismo e da vaidade. No entanto as restrições ainda nos inquietam à desejar arquitetar.
E neste momento lembremos Do Arquiteto Supremo Deus, cuja obra é vista com indiferença mas generosamente nos dá a vida.
reynaldo felicio

sergio machado disse...

Ora, ora, Reinaldo! é um prazer ouvir as suas observações, sempre impulsionadoras!