26 de jul de 2009

conchas

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"...a concha vazia, como o ninho vazio, sugere devaneios de refúgio."
Gaston Bachelard, "A Poética do Espaço"





É muito comum chamar-se de caixotes, com um evidente tom pejorativo, os edifícios de formas simples e ortogonais. Se forem simétricos, serão também considerados arcaicos. Entretanto, todos sabemos como é difícil projetar uma caixa expressiva.
Obras recentes (ou já nem tanto) de um numeroso grupo de arquitetos paulistas, dentre os quais estão Álvaro Puntoni, Ângelo Bucci, MMBB, Andrade Morettin e muitos outros, tem feito este exercício, com alguns bons resultados e outros tantos malabarismos inócuos.
Um dos pontos que me chamam a atenção no conjunto de obras dessa auto-intitulada Resistência (?), é a simplificação nas relações edifício/contexto e interior/exterior, fazendo com que as suas caixas se enquadrem quase sempre naquilo que o meu caríssimo irmão de formação, João Diniz, chamou de “cubismo transparente” (já especulei sobre esse tema em posts anteriores sobre "privacidade").
Num extremo da arquitetura moderna brasileira temos essa vertente inspirada em Paulo Mendes da Rocha e no outro, as curvas aparentemente “livres” do Niemeyer. Nada mais enganoso do que essa idéia de “curvas livres”, e a insistência nessa afirmação poética talvez tenha nos afastado do estudo da geometria, mais presente nos edifícios do Oscar do que as curvas das montanhas do Rio ou da mulher brasileira.
Mas é como inspiração e alternativa a esse beco sem saída no qual se encontra a arquitetura brasileira, dividida entre fórmulas prontas e gênios improváveis, que vejo o projeto da casa-concha, do arquiteto japonês Kitaro Ide.

Os materiais são o concreto e o vidro, mas foram trabalhados de modo a participarem das relações entre o edifício e a natureza, e não como manifesto construtivo. O discurso desenvolvido por Ide, é no sentido de aproximar o natural e o artificial, sem conflitos, mas também sem concessões: eles coexistem e são integrados por meio da geometria.

A implantação demonstra uma abordagem sutil e progressiva da privacidade, e propicia a geração de um espaço interiorizado e ao mesmo tempo aberto, bem diferente daqueles que decorrem do “cubismo transparente”, que trata fechamentos e aberturas mais em função de suas coerências construtivas e compositivas, deixando muito a desejar em termos tanto de integração quanto de privacidade. A casa-concha, e agora vejo que o nome tem razões que vão além da forma, eleva-se do chão, protegida da umidade, mas sem o isolamento que o uso dos pilotis provoca, ao implicar numa relação apenas visual entre os espaços da casa e a natureza.

De dentro de uma concha esperamos que saiam animais fantásticos e assustadores, criados pela nossa imaginação, mas, como assinala Bachelard, Afrodite também nasceu nessas condições.


































































































































































2 comentários:

Anônimo disse...

Mestre,

o complexo e o minimalismo em um unico objeto arquitetônico, dificil de discutir ou comentar a qualidade no desenvolvimento deste processo projetual. Você ja apresentou outros projetos japoneses e sempre com uma sensibilidade que nos toca a alma. A capacidade destes profissionais em provocar todos os nossos sentidos com a qualidade de entender nossas percepções, buscando na essencia humana a inspiração para sua Arquitetura, nos ajuda a entender o quando temos em apreender.

Obrigado pelo deleite.

ton

sergio disse...

E isso está ao alcance dos nossos lápis, não é? Ter consciência da possibilidade aumenta as nossas chances de realizar...