14 de set de 2009

um silêncio perverso

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"Inaugurada e inclusa, a Cidade da Música do Rio de Janeiro transformou-se, inesperadamente, numa campeã de matérias jornalísticas. Infelizmente, nada do que tem sido escrito recentemente diz respeito às qualidades (ou à eventual falta de qualidade) do projeto arquitetônico, de autoria do arquiteto francês Christian de Portzamparc (Casablanca, 1944). Por regra, a imprensa tem abordado o grande complexo cultural sob um único prisma: as supostas irregularidades cometidas ao longo de sua construção. Bem entendido, tais matérias não são assinadas por arquitetos. Como de costume, os arquitetos estão – salvo raríssimas exceções – calados.
Embora previsível, o mutismo do meio arquitetural brasileiro com respeito à Cidade da Música do Rio de Janeiro é particularmente incômodo, além de eloqüente. Pois, do ponto de vista da arquitetura brasileira, esse não é – ou pelo menos não deveria ser visto como – um projeto qualquer."


Começa assim o excelente artigo de Otavio Leonídio (http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq111/arq111_01.asp). Poderíamos argumentar que, por não estar terminado, o edifício em questão não deve ainda ser analisado. Bobagem: discute-se arquitetura ainda enquanto projeto. Mas será que no Brasil se discute arquitetura? Creio ser mais apropriado dizer que se fala de algumas arquiteturas, que se apresentam alguns edifícios. A discussão mesmo, é marginal, reservada para as madrugadas e para os recintos privados dos escritórios. Ou então, mais uma vez surpreendentemente, gostamos todos das mesmas coisas.

O texto abre várias vertentes férteis, e pretendo voltar a ele outras vezes. Entretanto, a sua presença nesta semana cujo tema casual é o silêncio, se dá, em primeiro lugar porque Leonídio começa fazendo menção a esse traço brasiliano. É nesse contexto que quero assinalar as relações entre a falta de diálogo e o estado atual da arquitetura brasileira.

Portzamparc é um arquiteto pós-moderno, mas Leonídio tenta livrá-lo desse título que, no Brasil, é uma ofensa e diz que ele “superou o pós-modernismo”, mas o que quer dizer isso? É alguma doença? O pós-modernismo é justamente a desobrigação de ser vanguarda pela inovação constante e aposta na validação das influencias históricas.
Conheci Christian de Portzamparc no seu projeto da Rue des Haultes Formes, de 1979, que é um residencial com inspirações históricas, no coroamento dos edifícios e na volumetria tradicionalmente composta, apresentando traços pintorescos. Anos depois ele projetou a Citè de la Musique, em Paris, um projeto cheio de equívocos formais, mas com referências múltiplas, tanto ao modernismo quanto aos estilos tradicionais. Portzamparc, assim como a maior parte dos arquitetos, foi evoluindo com o passar do tempo, mas a liberdade com que transita na história da arquitetura é provavelmente uma herança pós-moderna.































Aqui no país da jabuticaba e do alcoolismo cultural, a recuperação do modernismo se dá a partir da pulverização do pós-modernismo, como se ele tivesse sido um pecado a ser enterrado. Tudo o que aconteceu na arquitetura mundial pós anos 80, tem a ver, com certeza, com os questionamentos do período pós-moderno e, é público e notório, quem não aprende as lições da história está condenado a repeti-la. Talvez, essa insistência em negar o pós-modernismo e buscar o modernismo nas formas estruturais do concreto armado, esteja na raiz da confusão frouxa em que se meteu a arquitetura brasileira, uma arquitetura que não aprendeu a explorar as múltiplas dimensões dos espaços interiores e que continua a se contentar com malabarismos construtivos, perpetrados por um pequeno grupo paulista. Comparem o Museu dos Coches, projetado no ano passado por Paulo Mendes da Rocha, em Lisboa e a Casa da Música, do Portzamparc, no Rio: um século as separa, mas o passado modernista sobrou para os nossos patrícios. (ver o arquivo de abril desse blog: "Modernismo Recrudescido: as dificuldades em ser contemporâneo).

Para Otavio Leonídio, “a arquitetura moderna brasileira se mudou para São Paulo (...). Continua sempre sendo brasileira. Continua sempre sendo moderna. Continua sempre sendo a mesma.”

É pra comemorar ou pra chorar?


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